Monday, August 15, 2005

Sonâmbulos

Estava até agora há pouco conversando com minha irmãzinha Ju pelo MSN. Uma coisa legal de escrever coisas que acabaram de acontecer ajuda a gente a capturar este momento no tempo. Daqui a 5, 10, 30 anos eu vou ler estas palavras e vou sentir o gosto desta hora. É aquela sensação de achar uma foto dentro de um livro que você não vê faz tempo. Um pedaço da nossa memória que a gente não conseguia nem sabia como acessar.
A gente estava falando exatamente sobre isso. Nossa percepção do tempo e do espaço.
Coisas extraordinárias têm acontecido na minha vida ultimamente. Olhando para trás é quase impossível acreditar que tudo isso é real, que estou realmente assim. Mas quanto dura essa sensação de maravilhamento?
Quanto tempo vai demorar para que eu ache que as areias do deserto que me cercam virem uma parte do universo que eu nem mais reparo?
Quando tempo vai ser preciso para eu parar de admirar a figura única do Burj Al Arab à noite no caminho de casa?
Quanto tempo levará para eu não perceber mais esta mistura única de raças, cores, roupas, cheiros e sabores?
O triste é pensar que é da natureza do ser humano se tornar insensível a maior parte do mundo que nos cerca.
Demora algum tempo, mas a gente acaba se acostumando com tudo. Pára de perceber o quanto a vida é rica.
Saímos do trabalho e de repente estamos em casa. Do caminho, que levou uns 40 minutos, só lembramos daquele motorista corno maldito que fechou a gente. Ah, tinha que ser mulher! E só. Todo o resto é uma memória nebulosa, difícil de acessar. A monotonia da existência. Nós vivemos da diferença, da comparação e do interesse. O resto vai para uma espécie de arquivo morto.
Nós lembramos do caminho, mas não da paisagem.
O pior é quando isso acontece com as pessoas. Não percebemos o mendigo na rua, o pessoal da limpeza do prédio, as pessoas com quem não temos muita afinidade...
Mas o medo está quando paramos de perceber as pessoas que são mais importantes. E isso acontece.
Há um tempo atrás assisti um filme com o Bruce Willis - Bruce Rules! - e a Michelle Pfeiffer. História de Nós Dois - do Rob Reiner, o mesmo diretor de Harry e Sally.
O filme fala sobre a história de um relacionamento. Um relacionamento como qualquer outro e que não acaba bem.
E lá tinha uma cena que me fez pensar.
Na hora de uma crise profunda ela diz para ele que há muito tempo eles pararam de se olhar nos olhos.
E isso é verdade. Dá medo.
Por isso eu tento lutar contra nossa tendência a nos fechar dentro de nossos casulos de percepção seletiva.
Quando será que paramos de olhar para o céu à noite?
Quero continuar olhando para o deserto, indo para casa e pensar "caramba, estou do outro lado do mundo!"
A vida não é extraordinária?

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