Monday, September 28, 2009

Pequenos Conflitos


Chega um momento na vida de quem tem filhos que diferenças irreconciliáveis aparecem. Em geral você espera que isso aconteça na adolescência ou na idade adulta, nunca quando sua filha tem apenas seis anos de idade.

Mas aconteceu.

Recentemente minha querida amiga Luciana Tafarello, mulher do também grande amigo André, mandou através de uma amiga nossa um pacote do material mais precioso do universo: amendoim Mendorato. Pode parecer um exagero para o público brasileiro, que só precisa dar uma passada em um Pão de Açúcar ou Carrefour para comprar um saquinho do Chateau Margaux dos amendoins japoneses, o amendoim japonês que deu origem à série, o amendoim japonês dos amendoins japoneses, mas para um fã incondicional longe da pátria amada, um pacotinho de Mendorato é como água para um beduíno perdido no deserto - analogia muito pertinente para quem mora no Oriente Médio.

Eu sabia que a minha pequena Carolina gostava de uns Mendoratos. Uma vez ela comeu tanto que até passou mal. O que eu não sabia é que ela é tão fão quanto este seu interlocutor. O primeiro sinal de quão grave era foi quando o pacote chegou às minhas mãos e imediatamente ela pediu para abri-lo. Eu devia ter percebido o que estava para acontecer, mas na minha ignorância do amor paterno eu deixei passar, enchi um pratinho para ela e fui cuidar dos meus afazeres.

Em geral um pacote de Mendorato dura várias semanas nas minhas mãos. Grãozinhos são comidos um a um, com grande prazer. Por isso uma semana depois fui tranquilamente pegar a minha dose semanal esperando encontrar o pacote cheio. Pare meu choque só encontrei os restos mortais dos Mendoratos que lá estiveram - um punhado de casquinhas e algumas lascas de amendoim. Demorou alguns segundos para entender o que tinha acontecido. Com o pacote vazio na mão olhei para a Carolina e perguntei:

- Carolina, o que foi que aconteceu aqui?

E ela respondeu:

- Acabou. Quero mais!

Ainda estou em choque.

Monday, September 14, 2009

Luzes, Câmeras... Ação!!!

Nas últimas duas semanas eu estive envolvido na filmagem de mais um comercial para a Sony.

A produção de um comercial é um processo cansativo e demorado, que começa com um pedido do cliente: quero um anúncio para TV para tal produto. Aí, na teoria, você senta, tem umas idéias, escreve o roteiro, se o cliente exigir faz um storyboard - espécie de história em quadrinhos feita para explicar o comercial - apresenta, aprova, entra em contato com produtoras de comerciais, escolhe o diretor, conversa com os diretor, espera o diretor preparar uma descrição de como ele vê o comercial sendo filmado, faz comentários, aprova a visão do diretor, aprova a escolha do diretor com o cliente, começa a produção, participa da seleção de atores, locações, etc., apresenta tudo para o cliente em uma reunião demorada e complicada em que cada detalhe da produção é abordado - incluindo cada tomada que vai ser filmada - e aí finalmente começa a filmagem.

Ufa!

No caso do comercial de Sony o processo se arrastou por mais de 2 meses. As idéias iniciais foram rejeitadas. A segunda leva também. O cliente, ainda não convencido, pediu mil alterações que acabaram transformando os comerciais no primo feio do Frankenstein.

Na minha opinião idéias são como uma cobertura de bolo: quanto mais gente põe o dedo, pior fica.

Um pequeno aparte. Quando digo "cliente" não estou me referindo a uma pessoa específica que tem o direito e dever de dizer sim ou não - para o bem ou para o mal. Estou usando um termo aproximado para descrever uma massa amorfa de pessoas com formações, expectativas e agendas diferentes, que tem como missão definir o destino do comercial que você está apresentando. Em geral você encontra em apresentações clientes que se enquadram em duas categorias "good cop" e o "bad cop", mas outras personalidades interessantíssimas fazem parte integrante do processo. Temos, por exemplo o "eu-não-deveria-estar nessa-reunião cop", o "sou-um-estagiário-que-quer-impressionar cop", o "porque-estamos-desperdiçando-dinheiro-em-propaganda-quando-deviamos-estar-investindo-em-promoção cop", o "comentários-são-bem-vindos-mas-quem-manda-aqui-sou-eu cop", o "você-tem-toda-razão-chefinho cop" e, talvez o pior de todos, o "eu-não-tenho-a-menor-idéia-do-que-eles-estão-falando-mas-vou-dar-minha-opinião-assim-mesmo cop".

Quanto maior o projeto, maiores as chances de que todos estes exemplares da fauna mercadológica sejam encontrados numa mesma reunião. E maior o número de opiniões desconexas distribuídas. E menores as chances de que o comercial que você vai produzir no final cheire um pouco melhor do que uma pilha fumegante de esterco fresquinho.

Cada uma das reuniões de apresentação que tivemos o elenco de apoio mudava, assim como as opiniões - e as chances de produzir no final algo que prestasse iam ficando menores do que as chances de ficar mais inteligente assistindo reality shows.

No final do último round, depois de alterar o nosso roteiro até que a única coisa que lembrava a idéia original era o papel em que ele estava impresso, o cliente fala: o roteiro agora está OK, mas vocês têm mais alguma idéia para apresentar?

Diz a sabedoria que chega um momento em que você tem que parar de apresentar novas idéias e começar a produzir alguma coisa. Em tempos de crise não dá para ficar sendo precioso e idealista, tem que fazer dinheiro entrar. Conhece aquela máxima que diz que o bom é inimigo do ótimo? No nosso caso eu diria que o péssimo é inimigo do muito ruim.

Mas desta vez eu decidi não ser prático e respondi para eles: sim, temos mais uma.

Depois de mais de 15 anos trabalhando em propaganda ainda existem momentos em que coisas surpreendentes acontecem. Por exemplo, um comitê de clientes difíceis aprovar uma idéia sem nenhuma alteração. E foi o que aconteceu, para nosso choque. A idéia permaneceu viva, quase intocada, por mais dois rounds de apresentações, para pessoas completamente diferentes.

Milagres acontecem. O roteiro foi aprovado.

Depois da concepção, a gestação - ou produção. Hora de entrar em contato com dúzias de companhias produtoras de comerciais, ver o trabalho de dezenas de diretores - a maioria deles horrível mas um ou dois que realmente fariam a diferença - para escolher o ideal. Fazer malabarismo com o dinheiro disponível. Uma verdade básica da propaganda: sua idéia sempre custa 20% a mais do que a verba do cliente.

Produtora escolhida, diretor confirmado. Chega a hora do longo e doloroso processo de produção. Tudo tem que ser escolhido e aprovado. Atores, locações, roupas, elenco de apoio, extras, música, fotografia... Cada cena, cada ângulo de câmera tem que ser definido e compartilhado com a agência e o cliente. Emails vêm e vão.

O prazo, claro, também é curto. No final acontece uma longa reunião de pré-produção em que todos os detalhes são apresentados, discutidos e, se a sorte está do nosso lado, aprovados. É uma reunião longa, monótona e tensa em que todos os aspectos da produção são discutidos à exaustão. Neste caso estávamos filmando o comercial em Beirute e o cliente estava em Dubai e toda a reunião foi feita por teleconferência - uma coisa que eu detesto. Ninguém se entende e ninguém entende o que está acontecendo do outro lado. E todo mundo age como se tudo estivesse sob controle.

Neste caso especificamente tudo deveria ter sido muito mais tranquilo, porque os pontos mais importantes da reunião - atores e locações - já haviam sido aprovados pelo cliente. O problema é que eu não contava que "sou-eu-quem-manda-e-não-quero-saber-se-já-foi-aprovado-antes cop" fosse aparecer e estragar a festa. De repente, a dois dias da filmagem, todas as locações foram rejeitadas. E você não sabe como isso pode afetar uma produção. Primeiro você precisa de permissões para filmar em um lugar, depois você vai lá e define onde cada câmera vai ser colocada, cada ângulo. Aí você faz um shooting board - uma espécie de storyboard ainda mais detalhada de cada tomada que você vai fazer. Complicado e demorado. De repente, a dois dias da filmagem, estávamos sem nada confirmado. E pior, o lugar que o cliente queria que filmássemos não estava disponível. E para complicar ainda mais o "sou-eu-quem-manda-e-não-quero-saber-se-já-foi-aprovado-antes cop" disse que tinha um contato em Beirute que iria conseguir a tal permissão - coisa que não aconteceu.

O que aconteceu é que a equipe de produção perdeu dois dias de preparação tentando resolver este problema pois no final, após umas mudanças cosméticas nas locações apresentadas antes, o cliente decidiu ir em frente com a nosso seleção original. Perda de tempo e energia. Mas que filmagem que acontece sem nenhum estresse? Ainda estou para ver.

Filmagens são das coisas mais tediosas que existem. Você fica de doze a catorze horas por dia sentado numa cadeira olhando para um monitorzinho sendo alimentado o tempo todo com comida da pior qualidade e refrigerantes. Claro que nem tudo é diversão - você tem que ficar ligado e dar opiniões a cada 5 minutos, para garantir que sua visão está sendo respeitada, algumas vezes tendo que brigar para que isso aconteça.

Dois dias - no caso desta produção - depois as filmagens acabam e começa o processo de pós-produção. O material é editado, apresentado, modificado, apresentado, processado, apresentado, modificado, apresentado, modificado, apresentado...até que todos estão satisfeitos ou o prazo final é alcançado e não há mais tempo para mudar mais nada - o que geralmente acontece. Esta produção especificamente seguiu todos esses passos.

O que eu posso dizer é que depois disso tudo você nem consegue olhar para o produto final - o comercial. É tanto o seu envolvimento que você não aguenta mais assisti-lo, não sabe se é ruim ou bom, divertido ou chato.

Vou deixar você leitor (se é que ainda existe um, já que não escrevo neste blog há dois meses) decidir o que acha.