Coldplay e as águas de Março.
Imagine ir a um show the rock em que, meio da apresentação da banda, comece a chover.
Não é difícil de imaginar. Todo roqueiro deve ter pelo menos uma história de chuva durante show incluída no seu currículo. Eu mesmo tenho várias.
Agora imagine que você está no show da banda de maior sucesso da atualidade.
No Oriente Médio.
Com chuva.
Obviamente não é a combinação mais provável de fatores. Mas foi exatamente o que aconteceu no final de semana passado quando fomos comemorar o aniversário da minha querida esposa no show do Coldplay em Abu Dhabi.
Um megashow do lado do hotel mais caro e impressionante de Abu Dhabi - o Emirates Palace. Lotado, disputado, antecipado, animado, molhado.
Quando chegamos em Abu Dhabi algumas gotas estavam caindo - o que já era inesperado. Ei, isso aqui não é São Paulo. Estamos no meio do deserto, Oriente Médio, caramba! Não é para chover aqui.
Claro que chove. Umas 5 vezes por ano. Mas não antes do show de rock mais esperado do ano - e não em Março, por favor.
Mas tem chovido - e bastante - ultimamente.
Depois de penar para chegar ao local do show - o trânsito em Abu Dhabi é tão lento que parece que você está em uma fotografia - paramos no estacionamento e, como tinha um tempo de sobra, ficamos assistindo um episódio de Lost no DVD do carro. It's good to be the king.
Como o horário do show estava chegando decimos entrar. Já lá dentro a luta foi para conseguir comprar bebida. Devia ter umas cinco mil pessoas tentando comprar cerveja - entre elas umas três mil furando fila.
Claro que também aconteceu na nossa frente. Para melhorar meu humor - filas comprar bebida em show e tentar arrumar vaga estacionamento de shopping deveriam fazer parte dos métodos de tortura usados pela CIA em Guantanamo - um grupo de argentinos estava na nossa frente e demorou quase uma hora para pedir metade do bar - claro que com mais alguns hermanos chegando para furar fila enquanto esperávamos. Bebidas na mão, entramos na área VIP (a Dri tinha comprado ingressos especiais) e descobrimos...que tinha um bar lá dentro, vazio, tranquilo.
Quando eu era criança e alguém da classe dizia ou fazia algo estúpido as crianças faziam um som.
- Dãããããrrrrrrr
Acho que dá para imaginar a cena.
Entramos no show com a banda tocando. Nada da loucura que vemos em shows no Brasil com gente se empurrando e tentando se matar para chegar perto dos ídolos. Fãs de todas as nacionalidades curtindo juntos.
E tenho que confessar, mesmo não sendo um grande fã da banda, que eles são muito bons ao vivo. O show foi sensacional. Inesquecível, mas não pela apresentação da banda.
Vinte minutos depois do começo da apresentação começou a chuviscar. Inacreditável! Chovendo num show nos Emirados Árabes? Eu estava achando irônico - até que começou a chover de verdade. E quando falo de verdade quero dizer que começou a chover para cacete!
Chuva de verdade, daquelas que você corria para rua para ficar ensopado e depois tomava bronca da mãe.
O legal de gente ensopada é que todas as máscaras caem. Todo mundo perde a pose e relaxa. E foi isso que aconteceu. A galera relaxou e pulou que nem criança - e o show ficou memorável.
A banda fez piada, brincou com a galera e, num momento surpresa, correu no meio do público e se apresentou num palquinho no meio do estádio - a uns 3 metros de onde estávamos.
Durante este "pocket show" no meio do show eles pediram para apagar as luzes para celebrar a Earth Hour e o Chris Martin - o vocalista da banda - falou para a platéia iluminar o palco com seus celulares. Funcionou.
Os celulares oficialmente substituiram os isqueiros como fonte oficial de iluminação de platéia.
Muita diversão.
No final do show, quase secos de tanto pular depois que a chuva parou, vamos para casa feliz da vida. Claro que ainda ia ter um atoleiro pela frente - que deixou muita gente parada mas foi enfrentado bravamente pelo Ford Flex da Dri com este seu interlocutor no volante - e mais de duas horas de viagem até Dubai - incluindo uma parada estratégica para comprar um rango e trocar a água das azeitonas.
Exaustos e ainda meio molhados fomos dormir com um sorriso nos lábios e dor nas pernas.
Chuva em Abu Dhabi durante o show do Coldplay? Improvável, mas não impossível, diriam alguns.
Thursday, April 02, 2009
Wednesday, February 25, 2009
Tuesday, February 24, 2009
Monday, February 16, 2009
Caras-Metades
Imagina você conhecer uma pessoa num dia e três dias depois estar casado com ela.
Bom, você não precisa estar bêbado em Las Vegas, ser uma estrela da indústria do entretenimento - ou ambos - para fazer isso.
No Oriente Médio e na Ásia - principalmente a Índia - isso é comum.
Casamentos arranjados entre pessoas da mesma casta ou da mesma região da Índia acontecem com frequência. Uma amiga minha indiana conheceu o futuro marido um mês antes do casamento, depois que o enlace já estava negociado pelas famílias.
Outro amigo, nepalês, conheceu a noiva - que era a única representante da mesma casta disponível na sua vila - cinco dias antes do casamento. Se você acha isso estranho, devia ver uma foto da criatura.
No mundo muçulmano conservador a história acontece de um jeito diferente. Garotos não saem com garotas, namoros são proibidos e beijo na boca, nem pensar! Em países que seguem leituras mais radicais do Corão - como a Arábia Saudita - se você não é marido, pai ou irmão da mulher você não pode nem andar junto, sob o risco de ser preso e levar uma chibatadas - como aconteceu com um amigo libanês que tinha um rolo com uma enfermeira canadense na. O coitado estava andando com a garota num shopping - a uma distância segura, pensava ele - quando foi abordado pela polícia religiosa. Preso, tomou dez chibatadas e foi expulso do país. Imagina o que aconteceria se tivessem pegado ele transando no carro...
Mas os moleques sempre arrumam um jeito. Antigamente passam de carro do lado das garotas e jogavam bilhetinhos com seus telefones - e romances começavam aí. Hoje em dia a tecnologia ajuda a furar os bloqueios. Eles flertam com as meninas - e vice-versa - usam bluetooth e SMSs e depois continuam seus xavecos via MSN, GoogleTalk ou o que estiver disponível.
Onde há hormônios sempre há um jeito.
Mas na hora de casar a história é outra. Você tem que ir até a casa da menina com seus pais para ser apresentado aos pais dela que, depois de aprová-lo, irão deixá-lo falar com futura noiva. Se os dois concordarem e gostarem um do outro podem se casar em uma semana - ou em alguns meses se a preparação para a cerimônia for mais complicadas. Em alguns casos a família decide pela mulher.
Antigamente haviam mulheres que ganhavam a vida fazendo estas apresentações, juntando as partes interessadas. Hoje elas são mais raras e, mais um sinal de que a tecnologia tem poder de mudar nossas cabeças mais do que cabeleireiro, estão sendo substituídas por agências matrimoniais online. Você coloca seu perfil, fotinho e pronto!
Mas um dos fatos mais curiosos é que no mundo árabe muçulmano a poligamia é permitida. Segundo algumas leituras do corão - eles nunca concordam - o homem muçulmano pode ter até 4 (quatro esposas). Isso mesmo, quatro esposas.
Imagina colocar quatro mulheres sob um mesmo teto e tentar viver em harmonia? Não é à toa que os locais adoram ficar perdidos no deserto na companhia de camelos.
Algum tempo atrás eu falei com um cara dos Emirados que tinha duas e estava se preparando para casar com a terceira. Qual era o truque, perguntei eu, porque eu tinha só uma e de vez em quando me deixava louco.
O segredo, disse ele, é sempre dar às outras o que você ofereceu à uma - ao invés de olho por olho, dente por dente é Louis Vuitton por Louis Vuitton, Prada por Prada.
Fácil. Só precisa ser justo e ter um cartão de crédito sem limite.
Imagina você conhecer uma pessoa num dia e três dias depois estar casado com ela.
Bom, você não precisa estar bêbado em Las Vegas, ser uma estrela da indústria do entretenimento - ou ambos - para fazer isso.
No Oriente Médio e na Ásia - principalmente a Índia - isso é comum.
Casamentos arranjados entre pessoas da mesma casta ou da mesma região da Índia acontecem com frequência. Uma amiga minha indiana conheceu o futuro marido um mês antes do casamento, depois que o enlace já estava negociado pelas famílias.
Outro amigo, nepalês, conheceu a noiva - que era a única representante da mesma casta disponível na sua vila - cinco dias antes do casamento. Se você acha isso estranho, devia ver uma foto da criatura.
No mundo muçulmano conservador a história acontece de um jeito diferente. Garotos não saem com garotas, namoros são proibidos e beijo na boca, nem pensar! Em países que seguem leituras mais radicais do Corão - como a Arábia Saudita - se você não é marido, pai ou irmão da mulher você não pode nem andar junto, sob o risco de ser preso e levar uma chibatadas - como aconteceu com um amigo libanês que tinha um rolo com uma enfermeira canadense na. O coitado estava andando com a garota num shopping - a uma distância segura, pensava ele - quando foi abordado pela polícia religiosa. Preso, tomou dez chibatadas e foi expulso do país. Imagina o que aconteceria se tivessem pegado ele transando no carro...
Mas os moleques sempre arrumam um jeito. Antigamente passam de carro do lado das garotas e jogavam bilhetinhos com seus telefones - e romances começavam aí. Hoje em dia a tecnologia ajuda a furar os bloqueios. Eles flertam com as meninas - e vice-versa - usam bluetooth e SMSs e depois continuam seus xavecos via MSN, GoogleTalk ou o que estiver disponível.
Onde há hormônios sempre há um jeito.
Mas na hora de casar a história é outra. Você tem que ir até a casa da menina com seus pais para ser apresentado aos pais dela que, depois de aprová-lo, irão deixá-lo falar com futura noiva. Se os dois concordarem e gostarem um do outro podem se casar em uma semana - ou em alguns meses se a preparação para a cerimônia for mais complicadas. Em alguns casos a família decide pela mulher.
Antigamente haviam mulheres que ganhavam a vida fazendo estas apresentações, juntando as partes interessadas. Hoje elas são mais raras e, mais um sinal de que a tecnologia tem poder de mudar nossas cabeças mais do que cabeleireiro, estão sendo substituídas por agências matrimoniais online. Você coloca seu perfil, fotinho e pronto!
Mas um dos fatos mais curiosos é que no mundo árabe muçulmano a poligamia é permitida. Segundo algumas leituras do corão - eles nunca concordam - o homem muçulmano pode ter até 4 (quatro esposas). Isso mesmo, quatro esposas.
Imagina colocar quatro mulheres sob um mesmo teto e tentar viver em harmonia? Não é à toa que os locais adoram ficar perdidos no deserto na companhia de camelos.
Algum tempo atrás eu falei com um cara dos Emirados que tinha duas e estava se preparando para casar com a terceira. Qual era o truque, perguntei eu, porque eu tinha só uma e de vez em quando me deixava louco.
O segredo, disse ele, é sempre dar às outras o que você ofereceu à uma - ao invés de olho por olho, dente por dente é Louis Vuitton por Louis Vuitton, Prada por Prada.
Fácil. Só precisa ser justo e ter um cartão de crédito sem limite.
Sunday, February 15, 2009

Salve a Donzela de Ferro.
Vinte e quatro anos depois finalmente assisti ao show que perdi no Rock in Rio.
Claro que meus pais não deixaram aquele moleque magrelo de catorze anos embarcar sozinho para a capital fluminense. Ele ficou na vontade, ouvindo a versão em vinil do show até gastar.
Doze anos depois veio a primeira chance de ver os caras ao vivo em em cores. Mas não foi a mesma coisa. As músicas não eram as mesmas que eu queria e talvez eu também não fosse o mais mesmo. Muito bom, mas poderia ter sido perfeito.
Corta de novo. Nos movemos para o futuro, mais treze anos - quase o número de anos que eu tinha quando perdi minha grande chance. Estou em Campinas e meu grande amigo André Brandalise me conta que a turnê iria passar no Brasil em Março. E lá estava eu em Campinas, pronto para voltar para Dubai...deixando a possibilidade de assistir aos catorze mil quilômetros e vinte e três horas de viagem para trás.
Claro que como todo grande amigo o André esfregou na minha cara o ingresso. "Já comprei, vou estar lá e você não!".
Se você algum cara te tratar bem pode ter certeza que ele não é seu amigo. Amigos de verdade enchem o seu saco, te provocam, te chamam de um monte de coisas ruins e você pensa "caramba, o cara é o maior brother" - e tenta provocá-lo pelo menos três vezes mais.
Mas encher a paciência não é o suficiente no competitivo universo macho - tem que pagar na mesma moeda. E eu não sabia que os deuses do Metal estariam do meu lado - pelo menos nesta oportunidade.
Cheguei em Dubai e meio sem querer, no meio de uma conversa com um colega de trabalho, que a Donzela de Ferro viria para essas paragens. Glória!
Cadê meu ingresso?
Mas não podia ficar assim...uma semana depois estou em Beirute para a finalização de um comercial que filmamos - aquele mesmo da libanesa beiçuda superstar. Quando você senta na ilha de edição para editar um comercial em geral é um misto de agitação e ócio. Primeiro você vê o material editado e tem que fazer uns cinquenta comentários - essa é a parte tensa. Aí você tem que esperar horas para eles fazerem todas as mudanças - a parte do ócio.
Durante este ócio eu liguei meu laptop e fiquei surfando na net feito um zumbi. Saí para ver um filme num shopping perto e quando voltei o Skype estava piscando: chamada de André Brandalise.
Ligamos nossas câmeras e ficamos conversando por uma hora, sobre todos os assuntos. E, antes de terminar, claro que ele me provocou de novo falando dos show. E eu fiquei quietinho.
Vingança é um prato mais saboroso servido com frios. Vai um salaminho e um queijo tipo reino aí.
De volta para Dubai leio mais sobre a turnê. Com se estivessem atendendo aos pedidos já quase esquecidos de um moleque de catorze anos feitos há vinte e cinco anos, o tema do show é reviver o show mais famoso que eles fizeram nos anos oitenta. Aquele que eu perdi.
E lá vou eu para o meu primeiro grande show em Dubai.
Uma coisa você pode dizer sobre rock clássico: é sempre um encontro de gerações. Moleques de dez anos de idade se misturam com tiozinhos com cabelos brancos e mesmo sem cabelos. Em qual das categorias será que eu me encaixo?
Naquela noite eu tinha catorze anos de idade.
Claro que tirei montes de fotos, pulei e cantei como um retardado e me filmei abusando verbalmente do meu grande amigo enquanto a banda tocava uma das músicas favoritas para postar depois no YouTube. Mas o meu plano infalível - esse é o meu lado Cebolinha - não funcionou - exatamente como o Cebolinha.
Tentei ligar de lá para o André enquanto o Iron Maiden tocava Phantom of the Opera, mas o maldito celular não funcionou. Gambá de sorte.
No fim do show o moleque, feliz da vida, andou até seu carro, voltou para casa, para sua esposa, sua filha e sua carreira. Vinte e cinco anos depois.
Thursday, February 12, 2009

Parabéns, Charles.
Há duzentos anos nascia Charles Robert Darwin.
Quarenta e nove anos depois ele publicaria, junto com Alfred Russel Wallace, a teoria da evolução que explicaria que a vida no nosso planeta está em constante transformação - processo regulado pela seleção natural - e que faz com que organismos mais adaptados ao meio ambiente tenham maiores chances de sobrevivência.
Entre outras afirmações controversas, Darwin anunciou que o homem (notem a ausência de maiúscula) descenderia do macaco - ou um ancestral comum aos macacos. Muitos se sentiram ofendidos.
Surpreendentemente, aqueles que deveriam ter se sentido mais ultrajados não se pronunciaram. Os macacos permanecem neutros com relação ao assunto.
Considerações sobre o macroverso.
Você pode ser preso por não seguir as leis da física?
A polícia pode te multar se você ultrapassar a velocidade da luz?
Se eu fosse um membro do congresso eu teria votado contra a Lei da gravidade.
A maior prova de que o universo está se expandindo é o valor do meu aluguel.
A maior prova de que ele não está é o meu salário.
Você pode ser preso por não seguir as leis da física?
A polícia pode te multar se você ultrapassar a velocidade da luz?
Se eu fosse um membro do congresso eu teria votado contra a Lei da gravidade.
A maior prova de que o universo está se expandindo é o valor do meu aluguel.
A maior prova de que ele não está é o meu salário.
Monday, February 02, 2009
Thursday, January 29, 2009
Tuesday, January 27, 2009
Resoluções de ano-novo fáceis de cumprir.
1 - Prometo respirar com mais frequência.
2 - Prometo esquecer alguns aniversários.
3 - Prometo jogar videogame até deixar minha mulher P. da vida.
4 - Prometo colocar gasolina no carro.
5 - Prometo comer no MacDonald's.
6 - Prometo não usar protetor solar
7 - Prometo que vou ficar irritado se tiver que acompanhar minha mulher às compras.
8 - Prometo assistir Sexto Sentido de novo na TV a cabo, mesmo que seja da metade para a frente.
9 - Prometo esquecer de usar fio dental.
10 - Prometo que vou dizer que coloquei água na forminha de gelo, mesmo que não tenha colocado.
11 - Prometo ficar com raiva de procurar vaga em estacionamento de shopping.
12 - Prometo deixar para o dia 23 de dezembro as compras de Natal.
13 - Prometo que vou descobrir alguma coisa cara que minha mulher comprou.
14 - Prometo que vou ficar puto com a coisa cara que minha mulher comprou.
15 - Prometo que vou comer todos os Mendoratos disponíveis.
16 - Prometo que vou comprar mais livros do que dou conta de ler.
17 - Prometo que vou esquecer de comprar ketchup na próxima vez que for ao supermercado.
18 - Prometo que vou queimar meu pé na areia quente da praia porque não levei chinelo.
19 - Prometo contar a piada da competição internacional das polícias.
20 - Prometo reclamar dos mecânicos de Dubai.
21 - Prometo reclamar dos preços em Dubai.
22 - Prometo reclamar do trânsito em Dubai.
23 - Prometo arrumar minha mala uma hora antes da viagem.
24 - Prometo esquecer de colocar pasta de dente na mala.
25 - Prometo ficar irritado com a operadora do meu cartão de crédito.
26 - Prometo falar que a pizza de São Paulo é a melhor que existe.
27 - Prometo contar para alguém que há mais libaneses em São Paulo do que no Líbano.
28 - Prometo confirmar para alguém que em Beirute não se come beirute.
29 - Prometo prometer que vou correr de kart com a galera.
30 - Prometo comer chilli con carne preparado pela minha esposa até passar mal.
31 - Prometo dar risada sozinho de uma coisa que achei na internet e que ninguém mais vai achar engraçado.
32 - Prometo comprar alguma coisa e logo depois de comprá-la descobrir que tinha muito mais barato em outra loja.
33 - Prometo dar dois beijos em uma pessoa que está esperando três.
34 - Prometo comprar um DVD pirata que não vai funcionar.
35 - Prometo sair atrasado de casa e ligar dizendo que estou chegando em 5 minutos.
36 - Prometo escrever mais promessas depois.
1 - Prometo respirar com mais frequência.
2 - Prometo esquecer alguns aniversários.
3 - Prometo jogar videogame até deixar minha mulher P. da vida.
4 - Prometo colocar gasolina no carro.
5 - Prometo comer no MacDonald's.
6 - Prometo não usar protetor solar
7 - Prometo que vou ficar irritado se tiver que acompanhar minha mulher às compras.
8 - Prometo assistir Sexto Sentido de novo na TV a cabo, mesmo que seja da metade para a frente.
9 - Prometo esquecer de usar fio dental.
10 - Prometo que vou dizer que coloquei água na forminha de gelo, mesmo que não tenha colocado.
11 - Prometo ficar com raiva de procurar vaga em estacionamento de shopping.
12 - Prometo deixar para o dia 23 de dezembro as compras de Natal.
13 - Prometo que vou descobrir alguma coisa cara que minha mulher comprou.
14 - Prometo que vou ficar puto com a coisa cara que minha mulher comprou.
15 - Prometo que vou comer todos os Mendoratos disponíveis.
16 - Prometo que vou comprar mais livros do que dou conta de ler.
17 - Prometo que vou esquecer de comprar ketchup na próxima vez que for ao supermercado.
18 - Prometo que vou queimar meu pé na areia quente da praia porque não levei chinelo.
19 - Prometo contar a piada da competição internacional das polícias.
20 - Prometo reclamar dos mecânicos de Dubai.
21 - Prometo reclamar dos preços em Dubai.
22 - Prometo reclamar do trânsito em Dubai.
23 - Prometo arrumar minha mala uma hora antes da viagem.
24 - Prometo esquecer de colocar pasta de dente na mala.
25 - Prometo ficar irritado com a operadora do meu cartão de crédito.
26 - Prometo falar que a pizza de São Paulo é a melhor que existe.
27 - Prometo contar para alguém que há mais libaneses em São Paulo do que no Líbano.
28 - Prometo confirmar para alguém que em Beirute não se come beirute.
29 - Prometo prometer que vou correr de kart com a galera.
30 - Prometo comer chilli con carne preparado pela minha esposa até passar mal.
31 - Prometo dar risada sozinho de uma coisa que achei na internet e que ninguém mais vai achar engraçado.
32 - Prometo comprar alguma coisa e logo depois de comprá-la descobrir que tinha muito mais barato em outra loja.
33 - Prometo dar dois beijos em uma pessoa que está esperando três.
34 - Prometo comprar um DVD pirata que não vai funcionar.
35 - Prometo sair atrasado de casa e ligar dizendo que estou chegando em 5 minutos.
36 - Prometo escrever mais promessas depois.
Fazendo beicinho.
Estou eu aqui em Beirute numa filmagem com a maior estrela pop árabe: Nancy Ajram.
Para dar uma idéia ela é a Beyoncé local. Está para todos os lados - da Coca Cola à Damas (joalheria de maior sucesso no Oriente Médio) entre outras grandes marcas. No meu caso ela foi escolhida para ser a cara da Sony Ericsson.
Como toda estrela árabe, ela tem o look de quem fez a alegria de algum cirurgião plástico - ou vários. Se no Brasil cirurgia plástica ficou mais importante do que ter geladeira em casa no Líbano é mais importante do que ter geladeira e comida para por na geladeira. Acho que já devo ter mencionado isso, mas tem até banco oferecendo empréstimo para pagar plástica. É interessante emprestar dinheiro para gente que tem um produto que está em queda...
Parece que todas as estrelas do mundo árabe vão ao mesmo cirurgião - elas eventualmente acabam ficando com a mesma cara. O mesmo nariz, os mesmos peitos, os mesmos beições.
E que beições.
Elas acabam ficado com o que os gringos chamam de trout pout - beicinho de truta em bom e velho português. O mais engraçado é que as mulheres a partir da casa dos quarenta acabam seguindo o mesmo caminho e, como todas acabam parecidas você nunca sabe se está frente a frente com uma lenda da música árabe ou a mulher do Mustafá.
Mas o que difere a Nancy Ajram das demais é o fato de ela ser uma pessoa muito tranquila, o que é difícil de entender dada a devoção que o público árabe tem por elas. Homens, mulheres, crianças, todo mundo a adora.
Estou escrevendo isso quinze minutos depois de ter almoçado um PF com ela e a equipe de filmagem em umas mesinhas de plástico vagabundas, em que só faltava ter o logo da Kaiser. E para tornar a situação ainda mais complicada, ela está grávida...
Dá para respeitar, principalmente depois de ter feito um trabalho com um outro astro da música, Wael Kfoury.
O cara era uma figura realmente irritante. Durante uma sessão de fotos ele deixava a agência - no caso eu - ver o que estava acontecendo até ele estar feliz com o resultado. Era só ele, o fotógrafo, o assistente e o maquiador, isolados do resto da equipe.
Aí você era convidado para ver as fotos no monitor que foram selecionadas por ele. Enquanto passávamos pelas fotos - com nossa estrela do lado - e chegávamos a uma que o indivíduo achava especialmente boa ele mandava parar e assobiava.
- FIUUUUUUUU!!!! (nota do tradutor: como sou lindo!!!!!)
Não é de matar?
Estou eu aqui em Beirute numa filmagem com a maior estrela pop árabe: Nancy Ajram.
Para dar uma idéia ela é a Beyoncé local. Está para todos os lados - da Coca Cola à Damas (joalheria de maior sucesso no Oriente Médio) entre outras grandes marcas. No meu caso ela foi escolhida para ser a cara da Sony Ericsson.
Como toda estrela árabe, ela tem o look de quem fez a alegria de algum cirurgião plástico - ou vários. Se no Brasil cirurgia plástica ficou mais importante do que ter geladeira em casa no Líbano é mais importante do que ter geladeira e comida para por na geladeira. Acho que já devo ter mencionado isso, mas tem até banco oferecendo empréstimo para pagar plástica. É interessante emprestar dinheiro para gente que tem um produto que está em queda...
Parece que todas as estrelas do mundo árabe vão ao mesmo cirurgião - elas eventualmente acabam ficando com a mesma cara. O mesmo nariz, os mesmos peitos, os mesmos beições.
E que beições.
Elas acabam ficado com o que os gringos chamam de trout pout - beicinho de truta em bom e velho português. O mais engraçado é que as mulheres a partir da casa dos quarenta acabam seguindo o mesmo caminho e, como todas acabam parecidas você nunca sabe se está frente a frente com uma lenda da música árabe ou a mulher do Mustafá.
Mas o que difere a Nancy Ajram das demais é o fato de ela ser uma pessoa muito tranquila, o que é difícil de entender dada a devoção que o público árabe tem por elas. Homens, mulheres, crianças, todo mundo a adora.
Estou escrevendo isso quinze minutos depois de ter almoçado um PF com ela e a equipe de filmagem em umas mesinhas de plástico vagabundas, em que só faltava ter o logo da Kaiser. E para tornar a situação ainda mais complicada, ela está grávida...
Dá para respeitar, principalmente depois de ter feito um trabalho com um outro astro da música, Wael Kfoury.
O cara era uma figura realmente irritante. Durante uma sessão de fotos ele deixava a agência - no caso eu - ver o que estava acontecendo até ele estar feliz com o resultado. Era só ele, o fotógrafo, o assistente e o maquiador, isolados do resto da equipe.
Aí você era convidado para ver as fotos no monitor que foram selecionadas por ele. Enquanto passávamos pelas fotos - com nossa estrela do lado - e chegávamos a uma que o indivíduo achava especialmente boa ele mandava parar e assobiava.
- FIUUUUUUUU!!!! (nota do tradutor: como sou lindo!!!!!)
Não é de matar?
Monday, January 19, 2009
London, London.
Uma coisa que provavelmente alguns dos meus milhares de leitores não estão sabendo:
Ganhei um prêmio internacional bacana. Prata no London Festivals.
Claro que não fui para Londres para receber o trófeu. Primeiro porque não sabíamos se iríamos ganhar ou não e não ia ser muito divertido ir para lá e ficar com aquela cara de pão Pullman, quando anunciam que outro anúncio, que você sempre acha muito pior que o seu, ganhou.
A parte boa é que o trófeu chegou dois dias depois do anúncio oficial dos vencedores - e era bem pesado. Me senti numa Copa do Mundo quando levantei a taça. Só faltou a camiseta 100% Jardim Irene.
Para quem não conhece o tal anúncio, aí vai...
Uma coisa que provavelmente alguns dos meus milhares de leitores não estão sabendo:
Ganhei um prêmio internacional bacana. Prata no London Festivals.
Claro que não fui para Londres para receber o trófeu. Primeiro porque não sabíamos se iríamos ganhar ou não e não ia ser muito divertido ir para lá e ficar com aquela cara de pão Pullman, quando anunciam que outro anúncio, que você sempre acha muito pior que o seu, ganhou.
A parte boa é que o trófeu chegou dois dias depois do anúncio oficial dos vencedores - e era bem pesado. Me senti numa Copa do Mundo quando levantei a taça. Só faltou a camiseta 100% Jardim Irene.
Para quem não conhece o tal anúncio, aí vai...
Que vergonha...
Quase seis meses sem postar.
As razões são várias. No começo você deixa de postar porque está sem assunto - ou pensa estar. Depois você fica ocupado por um tempo e não arruma espaço na cabeça para escrever. De repente você pára e descobre que não consegue escrever mais por excesso de assuntos.
Bom, para voltar a escrever com no blog nada melhor que uma das minhas resoluções de ano novo: voltar a escrever no blog.
Para continuar escrevendo nada melhor do que listar todas as outras resoluções. Mas isso fica para outro post, quero acumular números neste começo de ano.
Quase seis meses sem postar.
As razões são várias. No começo você deixa de postar porque está sem assunto - ou pensa estar. Depois você fica ocupado por um tempo e não arruma espaço na cabeça para escrever. De repente você pára e descobre que não consegue escrever mais por excesso de assuntos.
Bom, para voltar a escrever com no blog nada melhor que uma das minhas resoluções de ano novo: voltar a escrever no blog.
Para continuar escrevendo nada melhor do que listar todas as outras resoluções. Mas isso fica para outro post, quero acumular números neste começo de ano.
Wednesday, August 13, 2008
Dissonância
Depois de três anos fora do Brasil ainda tenho a sensação de algo não está certo.
A vida do desterrado é assim. Você se acostuma com as coisas mais extraordinárias, mas sempre fica com a impressão de que alguns espaços não estão sendo preenchidos. Décadas de treinamento consciente e inconsciente fazem com que você tenha uma idéia de como o mundo deve ser. Você sabe, por exemplo, que as placas são devem ser escritas em português, que final de semana é sábado e domingo, que Natal é feriado e que Sete de Setembro também. Quando você muda de país - principalmente um país no Oriente Médio - seu treinamento consciente cuida do recado. Placas em inglês e em árabe, finais de semana de sexta e sábado, nada de Natal ou Sete de Setembro. Você faz a troca tranquilamente porque são coisas importantes e esperadas - parte da sua percepção e treinamento consciente.
As coisas começam a ficar interessantes quando você pensa nas pequenas coisas que fazem de você, digamos, você. Aquelas coisas que separadamente não são importantes, mas juntas ajudam a montar a sua imagem de mundo - e não estou falando apenas de Amendoim Mendorado.
Um dia você está dirigindo por aí e percebe que não nenhum fusca à vista. Como é possível que exista um lugar onde não existam fuscas? E não é só que os fuscas se foram - eles nunca estiveram. Assim como brasílias, variants, kombis e Monzas Hatch - o ausência do último eu qualificaria como uma benção. As ruas de Dubai não parecem certas sem eles. É a dissonância.
Essas pequenas coisas fazem falta - não só porque você gosta delas - muitas vezes é exatamente o contrário - mas porque você ESPERA que elas estejam lá. Condicionamente, meu caro.
Não ter padaria também é estranho. Como pode existir um lugar no mundo onde não tem padaria? Não me leve a mal - os supermercados têm excelentes pães e ainda tem aquela versão meio aviadada que os franceses gostam de chamar de boulangerie, mas não é a mesma coisa. Não são lugares em que você pára no caminho para casa para comprar presunto, mussarela e pãozinho francês - e claro, leite no saquinho. Ou que, na ida para o trabalho dá uma paradinha para tomar uma média.
No supermercado não tem goiabada cascão.
No sinal não tem ninguém tentando limpar seu vidro. Também não tem ninguém tentando te assaltar, mas isso é algo que eu não deixei de notar desde o primeiro segundo em que pisei aqui.
Na estrada não tem pedágio - mas você não pode dizer o mesmo da cidade.
Dubai não tem banquinha de jornal. Como é possível?
Não tem bala juquinha e pirulito Zorro.
Não tem buraco na rua - e também não tem prefeitura para amaldiçoar quando você passa em cima de um. Também não tem Testemunha de Jeová batendo na sua porta para te converter ou simplesmente para interromper sua Sessão da Tarde. Aliás, aqui não tem Sessão da Tarde - ou se tiver, não tive tempo de descobrir a existência.
Em Dubai não tem Coxinha de Frango - sinal, talvez, de que não há futuro para esta terra.
Não existem aqui restaurantes por quilo.
Aqui você nunca ouve o toque de "chamada a cobrar". Também não existe o toque de oito segundos antes do telejornais - a não ser, é claro, que você seja um dos (in)afortunados brasileiros que tem Globosat em casa e podem se deleitar não só com o Jornal Nacional mas também com Faustão, Zorra Total e afins.
Aqui não amolador de faca e vendedor de biju. Não que eles ainda existam no Brasil, mas não consigo imaginar a pátria-amada sem eles. Também não tem vendedora de Yakult com seus carrinho-isopor. Yakult tem, mas só no supermercado e com preço de Black Label. Nunca se pagou tanto por lactobacilos vivos - eles devem ter pedigree, com certeza.
Em Dubai não tem Casas Bahia, nem Riachuelo. E nem me fale em C&A...
Aqui não se vê camelô - a não ser que você tenha sotaque francês.
Dubai não tem pardal. Não tem catadores de papel com sua carroças, gente morando debaixo da ponte. Pontes não faltam.
Aqui não tem aqueles velhinhos com realejo e aquela maritaca que tira a sorte - e nem mico.
Dubai não tem peteca e nem balão em junho. Aqui não tem praça com coreto e nem feira Hippie. Não tem rodoviária - todo mundo vai e vem de avião - e nem descida para a praia em feriado prolongado.
Algumas dessas coisas volta e meia acabam aparecendo, contrabandeadas pela comunidade brazuca que vai e vem, agora non-stop by Emirates. Outras, a maioria delas, continuam ausentes - únicas, insubstituíveis ou intransportáveis.
No final das contas preenchemos as lacunas com outras coisas - treinando nossas cabeças para lidar com novas coisas que não estavam ali antes. O canto dos imans nas horas das preces vindo dos alto-falantes nas mesquitas, comer churrasco grego - shawarma - e achar o máximo, ver mulheres cobertas, trabalhadores indianos, umidade relativa do ar de 100%, comer no escritório durante o Ramadan, assistir cricket - e, surpreendentemente, entender, comer em restaurante indiano no almoço, soltar imprecações em árabe e outras coisinhas que podem até passar desapercebidas mas estão ali, ajudando a definir a sua idéia de realidade.
Mas o que eu não daria por uma coxinha...
Depois de três anos fora do Brasil ainda tenho a sensação de algo não está certo.
A vida do desterrado é assim. Você se acostuma com as coisas mais extraordinárias, mas sempre fica com a impressão de que alguns espaços não estão sendo preenchidos. Décadas de treinamento consciente e inconsciente fazem com que você tenha uma idéia de como o mundo deve ser. Você sabe, por exemplo, que as placas são devem ser escritas em português, que final de semana é sábado e domingo, que Natal é feriado e que Sete de Setembro também. Quando você muda de país - principalmente um país no Oriente Médio - seu treinamento consciente cuida do recado. Placas em inglês e em árabe, finais de semana de sexta e sábado, nada de Natal ou Sete de Setembro. Você faz a troca tranquilamente porque são coisas importantes e esperadas - parte da sua percepção e treinamento consciente.
As coisas começam a ficar interessantes quando você pensa nas pequenas coisas que fazem de você, digamos, você. Aquelas coisas que separadamente não são importantes, mas juntas ajudam a montar a sua imagem de mundo - e não estou falando apenas de Amendoim Mendorado.
Um dia você está dirigindo por aí e percebe que não nenhum fusca à vista. Como é possível que exista um lugar onde não existam fuscas? E não é só que os fuscas se foram - eles nunca estiveram. Assim como brasílias, variants, kombis e Monzas Hatch - o ausência do último eu qualificaria como uma benção. As ruas de Dubai não parecem certas sem eles. É a dissonância.
Essas pequenas coisas fazem falta - não só porque você gosta delas - muitas vezes é exatamente o contrário - mas porque você ESPERA que elas estejam lá. Condicionamente, meu caro.
Não ter padaria também é estranho. Como pode existir um lugar no mundo onde não tem padaria? Não me leve a mal - os supermercados têm excelentes pães e ainda tem aquela versão meio aviadada que os franceses gostam de chamar de boulangerie, mas não é a mesma coisa. Não são lugares em que você pára no caminho para casa para comprar presunto, mussarela e pãozinho francês - e claro, leite no saquinho. Ou que, na ida para o trabalho dá uma paradinha para tomar uma média.
No supermercado não tem goiabada cascão.
No sinal não tem ninguém tentando limpar seu vidro. Também não tem ninguém tentando te assaltar, mas isso é algo que eu não deixei de notar desde o primeiro segundo em que pisei aqui.
Na estrada não tem pedágio - mas você não pode dizer o mesmo da cidade.
Dubai não tem banquinha de jornal. Como é possível?
Não tem bala juquinha e pirulito Zorro.
Não tem buraco na rua - e também não tem prefeitura para amaldiçoar quando você passa em cima de um. Também não tem Testemunha de Jeová batendo na sua porta para te converter ou simplesmente para interromper sua Sessão da Tarde. Aliás, aqui não tem Sessão da Tarde - ou se tiver, não tive tempo de descobrir a existência.
Em Dubai não tem Coxinha de Frango - sinal, talvez, de que não há futuro para esta terra.
Não existem aqui restaurantes por quilo.
Aqui você nunca ouve o toque de "chamada a cobrar". Também não existe o toque de oito segundos antes do telejornais - a não ser, é claro, que você seja um dos (in)afortunados brasileiros que tem Globosat em casa e podem se deleitar não só com o Jornal Nacional mas também com Faustão, Zorra Total e afins.
Aqui não amolador de faca e vendedor de biju. Não que eles ainda existam no Brasil, mas não consigo imaginar a pátria-amada sem eles. Também não tem vendedora de Yakult com seus carrinho-isopor. Yakult tem, mas só no supermercado e com preço de Black Label. Nunca se pagou tanto por lactobacilos vivos - eles devem ter pedigree, com certeza.
Em Dubai não tem Casas Bahia, nem Riachuelo. E nem me fale em C&A...
Aqui não se vê camelô - a não ser que você tenha sotaque francês.
Dubai não tem pardal. Não tem catadores de papel com sua carroças, gente morando debaixo da ponte. Pontes não faltam.
Aqui não tem aqueles velhinhos com realejo e aquela maritaca que tira a sorte - e nem mico.
Dubai não tem peteca e nem balão em junho. Aqui não tem praça com coreto e nem feira Hippie. Não tem rodoviária - todo mundo vai e vem de avião - e nem descida para a praia em feriado prolongado.
Algumas dessas coisas volta e meia acabam aparecendo, contrabandeadas pela comunidade brazuca que vai e vem, agora non-stop by Emirates. Outras, a maioria delas, continuam ausentes - únicas, insubstituíveis ou intransportáveis.
No final das contas preenchemos as lacunas com outras coisas - treinando nossas cabeças para lidar com novas coisas que não estavam ali antes. O canto dos imans nas horas das preces vindo dos alto-falantes nas mesquitas, comer churrasco grego - shawarma - e achar o máximo, ver mulheres cobertas, trabalhadores indianos, umidade relativa do ar de 100%, comer no escritório durante o Ramadan, assistir cricket - e, surpreendentemente, entender, comer em restaurante indiano no almoço, soltar imprecações em árabe e outras coisinhas que podem até passar desapercebidas mas estão ali, ajudando a definir a sua idéia de realidade.
Mas o que eu não daria por uma coxinha...
Wednesday, July 16, 2008
38 primaveras.
Meu quarto aniversário comemorado em Dubai acabou de passar.
Engraçado que ainda me considero o mesmo moleque que gostava de empinar pipa, ler A Ilha do Tesouro e andar de bicicleta por todo o lado.
O que será que muda na gente? Será que são as contas para pagar? Ou são as dores nas costas?
Talvez sejam os cabelos brancos.
Meu quarto aniversário comemorado em Dubai acabou de passar.
Engraçado que ainda me considero o mesmo moleque que gostava de empinar pipa, ler A Ilha do Tesouro e andar de bicicleta por todo o lado.
O que será que muda na gente? Será que são as contas para pagar? Ou são as dores nas costas?
Talvez sejam os cabelos brancos.
Thursday, July 10, 2008
Banzo vs. anti-Banzo.
O Brasil faz falta. De vez em quando dá vontade de empacotar tudo e voltar para casa, para as paisagens conhecidas, para as comidas, sons, cheiros e amigos.
Por outro lado você pensa no lado bom de estar longe da Pindorama. Desafios, dinheiro, segurança, conforto, aventura, novos amigos...
O resultado final sempre te deixa dividido. A cabeça do expatriado é vive uma eterna confusão, sempre pesando os prós e contras de estar aqui ou acolá - até que uma razão tão forte que destrua este equilíbrio apareça.
Hoje de manhã eu percebi que não dá para voltar para o Brasil. Perdi a fé no meu país de origem e não sei se um dia vou recuperar.
Hoje de manhã eu ouvi pela primeira vez a Dança do Quadrado.
Não há mais esperança para o povo brasileiro, sinto muito.
O Brasil faz falta. De vez em quando dá vontade de empacotar tudo e voltar para casa, para as paisagens conhecidas, para as comidas, sons, cheiros e amigos.
Por outro lado você pensa no lado bom de estar longe da Pindorama. Desafios, dinheiro, segurança, conforto, aventura, novos amigos...
O resultado final sempre te deixa dividido. A cabeça do expatriado é vive uma eterna confusão, sempre pesando os prós e contras de estar aqui ou acolá - até que uma razão tão forte que destrua este equilíbrio apareça.
Hoje de manhã eu percebi que não dá para voltar para o Brasil. Perdi a fé no meu país de origem e não sei se um dia vou recuperar.
Hoje de manhã eu ouvi pela primeira vez a Dança do Quadrado.
Não há mais esperança para o povo brasileiro, sinto muito.
Friday, July 04, 2008
Mais uma sobre cinema.
Assistimos Wall-E hoje. Primoroso. Os caras da Pixar realmente estão além.
História, animação, personagens, design, edição, som, efeitos sonoros, música, tudo foi feito com tanta paixão e talento que me dão orgulho de fazer parte da mesma espécie dos realizadores.
Talvez tenha sido o melhor filme que vi este ano.
E como bônus tivemos a Carolina imitando sem parar o robozinho do filme dizendo seu nome.
"Wall...íííí, Wall...íííí!!!
Assistimos Wall-E hoje. Primoroso. Os caras da Pixar realmente estão além.
História, animação, personagens, design, edição, som, efeitos sonoros, música, tudo foi feito com tanta paixão e talento que me dão orgulho de fazer parte da mesma espécie dos realizadores.
Talvez tenha sido o melhor filme que vi este ano.
E como bônus tivemos a Carolina imitando sem parar o robozinho do filme dizendo seu nome.
"Wall...íííí, Wall...íííí!!!
Wednesday, July 02, 2008
Múlti-tarefa.
Escrever à mão é como praticar esportes: você precisa se exercitar constantemente senão fica sem forma.
Graças ao computador hoje nossas mãos e dedos só estão acostumados a apertar teclas. Tente escrever uma carta com a boa e velha caneta que você vai sentir. Duas páginas cansam mais do que uma maratona. Uma carta de cinco páginas, se você tiver coragem de chegar lá, vai ser como um Iron Man no verão havaiano.
Mesmo os emails se tornaram curtos e impessoais. Já foi o tempo em que emails eram mais ou menos a mesma coisa que uma carta escrita em forma digital. Hoje é tudo curto, abreviado. Um retrato da idade da falta de paciência em que vivemos.
Você fica 45 segundos dentro de um elevador e já começa a pensar no tempo perdido e como seria bom se tivesse sinal para o celular - aí daria para aproveitar o tempo para mandar uns SMSs. Você coloca um almoço congelado no microondas que fica pronto em um minuto e fica olhando para o prato girando e pensando "caceta, por que não fazem essas coisas mais fáceis de preparar? Está demorando muito".
Nós hoje vivemos o tempo prensado. Engarrafamento é hora de retocar a maquiagem, mandar SMSs, responder emails, ler jornal, falar no telefone, cutucar o nariz e, se sobrar um tempo, prestar atenção no trânsito. Cada segundo conta. No escritório tem sempre 4 janelas abertas no navegador de internet. Notícias, home banking, seu email pessoal onde sempre tem umas piadas novas, e aquele site de fofocas ou esporte que você gosta tanto de ler. E fora isso tem uma planilha de excel sendo feita junto com uma apresentação de Power Point que o seu chefe pediu ajuda para preparar.
A tecnologia não está aí para nos fazer poupar tempo. Está aí para te deixar mais atarefado, para comprimir tarefas que demoravam dias em blocos de poucos minutos. Nunca parou para pensar que com todos os aparatos tecnológicos você trabalha muito mais do que nossos pais trabalhavam?
Por isso as artes lentas como escrever cartas, contar piadas ao vivo e em cores e, no meu caso, desenhar, vão se tornando cada vez mais raras.
Meus dedos ainda estão doendo das duas ilustrações que fiz esta semana. E nem sentiram nada depois das 1500 marteladas nos teclados que se transformaram neste post.
Escrever à mão é como praticar esportes: você precisa se exercitar constantemente senão fica sem forma.
Graças ao computador hoje nossas mãos e dedos só estão acostumados a apertar teclas. Tente escrever uma carta com a boa e velha caneta que você vai sentir. Duas páginas cansam mais do que uma maratona. Uma carta de cinco páginas, se você tiver coragem de chegar lá, vai ser como um Iron Man no verão havaiano.
Mesmo os emails se tornaram curtos e impessoais. Já foi o tempo em que emails eram mais ou menos a mesma coisa que uma carta escrita em forma digital. Hoje é tudo curto, abreviado. Um retrato da idade da falta de paciência em que vivemos.
Você fica 45 segundos dentro de um elevador e já começa a pensar no tempo perdido e como seria bom se tivesse sinal para o celular - aí daria para aproveitar o tempo para mandar uns SMSs. Você coloca um almoço congelado no microondas que fica pronto em um minuto e fica olhando para o prato girando e pensando "caceta, por que não fazem essas coisas mais fáceis de preparar? Está demorando muito".
Nós hoje vivemos o tempo prensado. Engarrafamento é hora de retocar a maquiagem, mandar SMSs, responder emails, ler jornal, falar no telefone, cutucar o nariz e, se sobrar um tempo, prestar atenção no trânsito. Cada segundo conta. No escritório tem sempre 4 janelas abertas no navegador de internet. Notícias, home banking, seu email pessoal onde sempre tem umas piadas novas, e aquele site de fofocas ou esporte que você gosta tanto de ler. E fora isso tem uma planilha de excel sendo feita junto com uma apresentação de Power Point que o seu chefe pediu ajuda para preparar.
A tecnologia não está aí para nos fazer poupar tempo. Está aí para te deixar mais atarefado, para comprimir tarefas que demoravam dias em blocos de poucos minutos. Nunca parou para pensar que com todos os aparatos tecnológicos você trabalha muito mais do que nossos pais trabalhavam?
Por isso as artes lentas como escrever cartas, contar piadas ao vivo e em cores e, no meu caso, desenhar, vão se tornando cada vez mais raras.
Meus dedos ainda estão doendo das duas ilustrações que fiz esta semana. E nem sentiram nada depois das 1500 marteladas nos teclados que se transformaram neste post.
Tuesday, July 01, 2008
Filmes.
Kung Fu Panda é sensacional.
Into The Wild é tocante.
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull é decepcionante.
Iron Man é pura diversão.
Super Bad é super good.
American Gangster é bom demais.
The Happening é médio e por isso desapontador.
Juno é excelente.
Walk Hard é engraçado para cacete.
There Will Be Blood é perturbador.
Pan's Labyrinth é hipnótico.
Narnia Chronicles - Prince Caspian é OK.
Norton Hears a Who é doce.
Forbidden Kingdom é uma volta à adolescência.
Kung Fu Panda é sensacional.
Into The Wild é tocante.
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull é decepcionante.
Iron Man é pura diversão.
Super Bad é super good.
American Gangster é bom demais.
The Happening é médio e por isso desapontador.
Juno é excelente.
Walk Hard é engraçado para cacete.
There Will Be Blood é perturbador.
Pan's Labyrinth é hipnótico.
Narnia Chronicles - Prince Caspian é OK.
Norton Hears a Who é doce.
Forbidden Kingdom é uma volta à adolescência.
Monday, June 30, 2008
Inquilino o cacete!
A pior coisa de morar em Dubai é ter que pagar aluguel. A cada ano que passa quando chega a hora de renovar o contrato do aluguel - os aluguéis aqui são pagos anualmente, o que torna o processo ainda mais doloroso - o desterrado sente provavelmente o mesmo tipo de tensão que o vietcong sentia quando ouvia o barulho dos helicópteros ianques chegando. Não tem para onde correr, é só continuar na sua posição e lutar para sobreviver mais um pouquinho.
Mercado imobiliário aqui é um papo mais popular do que futebol e política. Não importa de onde você vem - Sérvia, Índia, Egito, Nova Zelândia, Alemanha, Inglaterra, Índia e Índia (aqui tem muito indiano) - aluguel é sempre o tema mais presente nas rodas de papo.
E não é para menos. Desde que cheguei aqui o aluguel da casa de dois dormitórios em que morava está 3 vezes mais caro. Você sente que está pagando para ficar morando no palácio de Buckingham - claro que sem os empregados e a carruagem. A cada dia que passa não só os aluguéis, mas os preços das propriedades sobem mais do que carregador sherpa em temporada de escalada. Proprietários querem aumentar os aluguéis e quando, por lei, não podem, vem com desculpas como "Vamos mudar para a casa onde vocês estão" ou "Meu filho vai casar e mudar para esta casa". Espera lá, seu filho tem 8 anos de idade! Não importa, tudo é desculpa para fazer muito dinheiro e rápido.
Empreendedoras lançam novos projetos e as pessoas viram a noite em filas para comprar o máximo possível. Parece o INPS, com a diferença que as filas aqui ficam às vezes no meio do deserto. A parte mais insana é que sempre tem mais gente do que unidades disponíveis e o que acontece é que a pessoa sai com o documento de compra e já tem um cara lá fora está te esperando para fazer uma oferta. Tumultos não são incomuns.
Se para quem está de fora o mercado imobiliário em Dubai é insano, para quem está dentro, com o próximo aluguel prestes a vencer é insuportável.
Hoje em dia eu não suporto nem jogar Banco Imobiliário. É só parar em um quadradinho em que tenho que pagar aluguel me dá vontade de vomitar.
Depois de três anos pagando aluguel prometi a mim mesmo que isso ia acabar. Como uma Scarlett O'Hara na frente de sua mansão na Geórgia eu fiz uma promessa: Não irei pagar aluguel de novo!
E como promessa é dívida, acabamos de nos endividar pelos próximos 25 anos. Compramos a casa que alugávamos nos Arabian Ranches.
Claro que não foi assim simples. O tempo ia passando, o nosso aluguel para vencer e nenhuma opção disponível. Já tínhamos perguntado para a imobiliária que administra nossa casa se o proprietário estava interessado em vendê-la mas eles disseram que não, por isso esta opção estava descartada. Começamos a procurar outros lugares mas nada realmente interessante ou dentro da faixa de preço que podíamos pagar. Os famosos 45 minutos do segundo tempo iam chegando e nada.
Um belo dia em que tínhamos agendado a visita de pelo menos umas 10 propriedades e teríamos que decidir por uma recebemos a ligação do agente imobiliário que alugou a casa para a gente.
"O proprietário quer vender. Vocês ainda querem comprar?"
Sim!!!
Eu tenho uma teoria que explica porquê as pessoas mudam. Mudam de casa, mudam de cidade, Estado ou país. Elas se mudam porque temos memória curta, porque se lembrássemos o pé-no-saco que é mudar, encaixotar tudo, desencaixotar tudo, arrumar tudo e fazer o lugar parecer um lar de novo, nunca saíriamos do mesmo lugar. Iríamos ficar ali quietinhos, felizes.
Eu posso falar disso como quem tem conhecimento de causa. Já morei em pelo menos umas 18 casas diferentes nestas quase 38 primaveras.
Foi um longo e desgastante processo em que você tem juntar mais papel do que inquerito contra político corrupto. E quando acha que acabou ainda tem mais papéis faltando. Finalmente você tem tudo na mão e aí aparecem mais papéis ainda para entregar. Finalmente chega o dia e te informam que mais um papel está faltando. A sensação é de que o Sol vai se apagar, o universo vai esfriar e você ainda vai estar colecionando papéis para ter sua hipoteca aprovada.
Chega o grande dia.
Vou sozinho para o Dubai Land Department onde os agentes imobiliários, o proprietário e o cara do banco com um cheque que tem um valor tão assustador que não quero nem pensar muito porque senão vou decidir comer no McDonald's o resto da vida.
Papéis assinados, apertos de mão, sorrisos e uma sensação de leveza indescritível.
Sou finalmente senhor do meu castelo - mesmo que tenha que passar os próximos 25 anos pagando salgadas prestações mensais.
A pior coisa de morar em Dubai é ter que pagar aluguel. A cada ano que passa quando chega a hora de renovar o contrato do aluguel - os aluguéis aqui são pagos anualmente, o que torna o processo ainda mais doloroso - o desterrado sente provavelmente o mesmo tipo de tensão que o vietcong sentia quando ouvia o barulho dos helicópteros ianques chegando. Não tem para onde correr, é só continuar na sua posição e lutar para sobreviver mais um pouquinho.
Mercado imobiliário aqui é um papo mais popular do que futebol e política. Não importa de onde você vem - Sérvia, Índia, Egito, Nova Zelândia, Alemanha, Inglaterra, Índia e Índia (aqui tem muito indiano) - aluguel é sempre o tema mais presente nas rodas de papo.
E não é para menos. Desde que cheguei aqui o aluguel da casa de dois dormitórios em que morava está 3 vezes mais caro. Você sente que está pagando para ficar morando no palácio de Buckingham - claro que sem os empregados e a carruagem. A cada dia que passa não só os aluguéis, mas os preços das propriedades sobem mais do que carregador sherpa em temporada de escalada. Proprietários querem aumentar os aluguéis e quando, por lei, não podem, vem com desculpas como "Vamos mudar para a casa onde vocês estão" ou "Meu filho vai casar e mudar para esta casa". Espera lá, seu filho tem 8 anos de idade! Não importa, tudo é desculpa para fazer muito dinheiro e rápido.
Empreendedoras lançam novos projetos e as pessoas viram a noite em filas para comprar o máximo possível. Parece o INPS, com a diferença que as filas aqui ficam às vezes no meio do deserto. A parte mais insana é que sempre tem mais gente do que unidades disponíveis e o que acontece é que a pessoa sai com o documento de compra e já tem um cara lá fora está te esperando para fazer uma oferta. Tumultos não são incomuns.
Se para quem está de fora o mercado imobiliário em Dubai é insano, para quem está dentro, com o próximo aluguel prestes a vencer é insuportável.
Hoje em dia eu não suporto nem jogar Banco Imobiliário. É só parar em um quadradinho em que tenho que pagar aluguel me dá vontade de vomitar.
Depois de três anos pagando aluguel prometi a mim mesmo que isso ia acabar. Como uma Scarlett O'Hara na frente de sua mansão na Geórgia eu fiz uma promessa: Não irei pagar aluguel de novo!
E como promessa é dívida, acabamos de nos endividar pelos próximos 25 anos. Compramos a casa que alugávamos nos Arabian Ranches.
Claro que não foi assim simples. O tempo ia passando, o nosso aluguel para vencer e nenhuma opção disponível. Já tínhamos perguntado para a imobiliária que administra nossa casa se o proprietário estava interessado em vendê-la mas eles disseram que não, por isso esta opção estava descartada. Começamos a procurar outros lugares mas nada realmente interessante ou dentro da faixa de preço que podíamos pagar. Os famosos 45 minutos do segundo tempo iam chegando e nada.
Um belo dia em que tínhamos agendado a visita de pelo menos umas 10 propriedades e teríamos que decidir por uma recebemos a ligação do agente imobiliário que alugou a casa para a gente.
"O proprietário quer vender. Vocês ainda querem comprar?"
Sim!!!
Eu tenho uma teoria que explica porquê as pessoas mudam. Mudam de casa, mudam de cidade, Estado ou país. Elas se mudam porque temos memória curta, porque se lembrássemos o pé-no-saco que é mudar, encaixotar tudo, desencaixotar tudo, arrumar tudo e fazer o lugar parecer um lar de novo, nunca saíriamos do mesmo lugar. Iríamos ficar ali quietinhos, felizes.
Eu posso falar disso como quem tem conhecimento de causa. Já morei em pelo menos umas 18 casas diferentes nestas quase 38 primaveras.
Foi um longo e desgastante processo em que você tem juntar mais papel do que inquerito contra político corrupto. E quando acha que acabou ainda tem mais papéis faltando. Finalmente você tem tudo na mão e aí aparecem mais papéis ainda para entregar. Finalmente chega o dia e te informam que mais um papel está faltando. A sensação é de que o Sol vai se apagar, o universo vai esfriar e você ainda vai estar colecionando papéis para ter sua hipoteca aprovada.
Chega o grande dia.
Vou sozinho para o Dubai Land Department onde os agentes imobiliários, o proprietário e o cara do banco com um cheque que tem um valor tão assustador que não quero nem pensar muito porque senão vou decidir comer no McDonald's o resto da vida.
Papéis assinados, apertos de mão, sorrisos e uma sensação de leveza indescritível.
Sou finalmente senhor do meu castelo - mesmo que tenha que passar os próximos 25 anos pagando salgadas prestações mensais.
Sunday, June 29, 2008
1095
No último dia 13 de junho o planeta Terra completou 3 voltas desde que saí do Brasil.
De cachorro que caiu de uma mudança de catorze mil quilômetros para parte da paisagem local foi um longo caminho.
Quando cheguei aqui era o único brasileiro à vista - claro que haviam outros, mas demorei 8 meses para encontrá-los - e por isso as pessoas me tratavam quase como um monumento, um marco, um ponto de referência:
- Bom, para você chegar lá é fácil, é só pegar esta avenida e, quando você avistar o brasileiro vire à esquerda. Não tem como errar.
1095 dias depois Dubai não parece mais tão longe. Em vez de ouvir "Ai, meu deus! Você está indo para aquele lugar, no meio da guerra, no meio do deserto, no meio do nada??!!!" você começou a ouvir "Nossa, eu vi uma matéria sobre Dubai no Fantástico, na Veja, no Amaury Júnior, no Faustão, na Turma do Didi, na Zorra Total, no quadro de avisos do meu prédio..." e ultimamente "Tem um conhecido, amigo, primo, irmão meu morando aí" ou " Estou pensando em passar uns dias aí, posso ficar na sua casa?"
Mudou muito.
Mudou o trabalho, mudamos de casa, mudamos de carro, mudamos de amigos...
Dubai é um lugar em que ninguém vem para ficar. Todos estão aqui em um caráter temporário. Essa temporada pode ser de um mês, um ano, cinco, dez anos. Mas no fim todos acabam seguindo em frente. O próprio governo dos Emirados ajuda a criar esta situação, porque - a não ser em situações muito específicas e restritas - ninguém aqui vira cidadão. Nossa relação com o lugar tem data de validade. O resultado é que o panorama humano muda quase tão rápido quanto a paisagem.
No final a sensação é de que você viveu muitas Dubais, completamente diferentes, nestes últimos 1095 dias. Mudanças radicais - algumas vezes para melhor, outras vezes para pior, na maior parte das vezes apenas para algo diferente - em que a única vantagem é que você não tem que chamar o caminhão de mudança.
No último dia 13 de junho o planeta Terra completou 3 voltas desde que saí do Brasil.
De cachorro que caiu de uma mudança de catorze mil quilômetros para parte da paisagem local foi um longo caminho.
Quando cheguei aqui era o único brasileiro à vista - claro que haviam outros, mas demorei 8 meses para encontrá-los - e por isso as pessoas me tratavam quase como um monumento, um marco, um ponto de referência:
- Bom, para você chegar lá é fácil, é só pegar esta avenida e, quando você avistar o brasileiro vire à esquerda. Não tem como errar.
1095 dias depois Dubai não parece mais tão longe. Em vez de ouvir "Ai, meu deus! Você está indo para aquele lugar, no meio da guerra, no meio do deserto, no meio do nada??!!!" você começou a ouvir "Nossa, eu vi uma matéria sobre Dubai no Fantástico, na Veja, no Amaury Júnior, no Faustão, na Turma do Didi, na Zorra Total, no quadro de avisos do meu prédio..." e ultimamente "Tem um conhecido, amigo, primo, irmão meu morando aí" ou " Estou pensando em passar uns dias aí, posso ficar na sua casa?"
Mudou muito.
Mudou o trabalho, mudamos de casa, mudamos de carro, mudamos de amigos...
Dubai é um lugar em que ninguém vem para ficar. Todos estão aqui em um caráter temporário. Essa temporada pode ser de um mês, um ano, cinco, dez anos. Mas no fim todos acabam seguindo em frente. O próprio governo dos Emirados ajuda a criar esta situação, porque - a não ser em situações muito específicas e restritas - ninguém aqui vira cidadão. Nossa relação com o lugar tem data de validade. O resultado é que o panorama humano muda quase tão rápido quanto a paisagem.
No final a sensação é de que você viveu muitas Dubais, completamente diferentes, nestes últimos 1095 dias. Mudanças radicais - algumas vezes para melhor, outras vezes para pior, na maior parte das vezes apenas para algo diferente - em que a única vantagem é que você não tem que chamar o caminhão de mudança.
Saturday, March 29, 2008
Sem frescura - No Fuss
Quando você trabalha em propaganda a vida passa em múltiplos de 30 segundos.
Neste post tem duas unidades. Me custaram dois meses de idas e vindas, conference calls, reuniões ao vivo, muitos emails de feedback escritos, longas horas na ilha de edição e alguns - novos - cabelos brancos.
Essa é a nova campanha de marca da Ford para ao Oriente Médio - um comercial que chamamos "No Fuss". Foi escrito por dois indianos e um brasileiro, produzido por libaneses, dirigido por um espanhol, com locução de um americano, música de um inglês e coordenado por uma equipe de atendimento liderada por um australiano, capitaneada por uma neozelandesa e com um soldado palestino-austríaco na linha de frente.
Isto é Dubai
Quando você trabalha em propaganda a vida passa em múltiplos de 30 segundos.
Neste post tem duas unidades. Me custaram dois meses de idas e vindas, conference calls, reuniões ao vivo, muitos emails de feedback escritos, longas horas na ilha de edição e alguns - novos - cabelos brancos.
Essa é a nova campanha de marca da Ford para ao Oriente Médio - um comercial que chamamos "No Fuss". Foi escrito por dois indianos e um brasileiro, produzido por libaneses, dirigido por um espanhol, com locução de um americano, música de um inglês e coordenado por uma equipe de atendimento liderada por um australiano, capitaneada por uma neozelandesa e com um soldado palestino-austríaco na linha de frente.
Isto é Dubai
Wednesday, March 26, 2008
A Sangue-frio.
A vida é assim. Vivemos nos auto-enganando.
Damos desculpa para adiar o começo do regime, para furar o regime, para recomeçar o regime, para deixar de pagar o cartão de crédito, para deixar de ligar para um amigo ou parente querido, para deixar de acordar mais cedo para ir à academia, para deixar de começar a ler aquele livro técnico importante que vai fazer toda a diferença na sua carreira, para não parar de espremer cravos no nariz, para não responder agora os emails recebidos, para adiar a ida ao dentista, , para parar de assistir ao Big Brother, para deixar para outra hora aquela ligação para o seu banco, para continuar votando no PT e para adiar para outro dia a tarefa de escrever um novo post.
Amanhã eu começo, eu faço, eu paro.
E assim vamos levando a nossa vida cheia de agoras.
As coisas boas devem ser saboreadas o quanto antes.
As coisas ruins devem ser tratadas como tirar band-aids: faça rápido e de uma vez só.
Assim tem sido a minha vida de chefe: todo dia é como se meu corpo amanhecesse coberto de band-aids de todas as cores e tamanhos.
Estes são os problemas que eu encontro todos os dias.
Alguns são daqueles redondinhos, cor-da-pele e pequenininhos. Saem fácil, você quase não percebe. Outros são daqueles tradicionais - transparentes, cor-da-pele ou até mesmo coloridos com estampas alegres. Doem bastante, mas dá para aguentar - se você for rápido e puxar com decisão.
Mas alguns são uns esparadrapos gigantes que cobrem uma área peluda perto da virilha. As mulheres sabem muito bem do que estamos falando.
Em geral a expectativa é mais dolorida do que a atividade da retirada propriamente dita. Você é quem dita a dimensão do curativo a ser removido.
Chamar alguém que pisou na bola para o que os escritores de livro de administração chamariam de "Feedback negativo porém construtivo" pode ser desde um band-aid redondinho até um quadrado de tamanho respeitável.
Se você for escolado pode ser até mesmo como passar um mertiolate dos novos - incolor, indolor e já vem com sopro. (A maior parte das pessoas nem deve conhecer o mertiolate vermelho e dolorido)
Mas tem algumas situações que sempre vão ser muito espadrapo, sem gaze numa região sensível e com muitos pelos debaixo.
Na vida do chefe eu diria que seriam anunciar demissões e fazer avaliações de final de ano extremamente negativas - estou tendo uma boa dose das duas.
Diria o sábio que notícia ruim é que nem presente: é melhor dar do que receber.
Eu diria que há dúvidas.
Você chega ao final do dia completamente esgotado e dolorido.
Talvez chegue um dia em que eu vá me transformar em um calejado assassino de aluguel que não lembra mais o nome das vítimas - ou uma enfermeira veterana encarregada de trocar as ataduras. Insensível.
Para mim ainda está longe de ser assim. Eu sofro até quando assisto aos episódios de O Aprendiz. (Bom, isso não é verdade, mas seria engraçado se fosse)
Mas no final do dia, da semana, do mês ou do ano fiscal você vai ter que fazê-lo.
Mas se tiver que acontecer, lembre-se: faça rápido, de uma vez.
Afinal o pelos crescem de novo.
A vida é assim. Vivemos nos auto-enganando.
Damos desculpa para adiar o começo do regime, para furar o regime, para recomeçar o regime, para deixar de pagar o cartão de crédito, para deixar de ligar para um amigo ou parente querido, para deixar de acordar mais cedo para ir à academia, para deixar de começar a ler aquele livro técnico importante que vai fazer toda a diferença na sua carreira, para não parar de espremer cravos no nariz, para não responder agora os emails recebidos, para adiar a ida ao dentista, , para parar de assistir ao Big Brother, para deixar para outra hora aquela ligação para o seu banco, para continuar votando no PT e para adiar para outro dia a tarefa de escrever um novo post.
Amanhã eu começo, eu faço, eu paro.
E assim vamos levando a nossa vida cheia de agoras.
As coisas boas devem ser saboreadas o quanto antes.
As coisas ruins devem ser tratadas como tirar band-aids: faça rápido e de uma vez só.
Assim tem sido a minha vida de chefe: todo dia é como se meu corpo amanhecesse coberto de band-aids de todas as cores e tamanhos.
Estes são os problemas que eu encontro todos os dias.
Alguns são daqueles redondinhos, cor-da-pele e pequenininhos. Saem fácil, você quase não percebe. Outros são daqueles tradicionais - transparentes, cor-da-pele ou até mesmo coloridos com estampas alegres. Doem bastante, mas dá para aguentar - se você for rápido e puxar com decisão.
Mas alguns são uns esparadrapos gigantes que cobrem uma área peluda perto da virilha. As mulheres sabem muito bem do que estamos falando.
Em geral a expectativa é mais dolorida do que a atividade da retirada propriamente dita. Você é quem dita a dimensão do curativo a ser removido.
Chamar alguém que pisou na bola para o que os escritores de livro de administração chamariam de "Feedback negativo porém construtivo" pode ser desde um band-aid redondinho até um quadrado de tamanho respeitável.
Se você for escolado pode ser até mesmo como passar um mertiolate dos novos - incolor, indolor e já vem com sopro. (A maior parte das pessoas nem deve conhecer o mertiolate vermelho e dolorido)
Mas tem algumas situações que sempre vão ser muito espadrapo, sem gaze numa região sensível e com muitos pelos debaixo.
Na vida do chefe eu diria que seriam anunciar demissões e fazer avaliações de final de ano extremamente negativas - estou tendo uma boa dose das duas.
Diria o sábio que notícia ruim é que nem presente: é melhor dar do que receber.
Eu diria que há dúvidas.
Você chega ao final do dia completamente esgotado e dolorido.
Talvez chegue um dia em que eu vá me transformar em um calejado assassino de aluguel que não lembra mais o nome das vítimas - ou uma enfermeira veterana encarregada de trocar as ataduras. Insensível.
Para mim ainda está longe de ser assim. Eu sofro até quando assisto aos episódios de O Aprendiz. (Bom, isso não é verdade, mas seria engraçado se fosse)
Mas no final do dia, da semana, do mês ou do ano fiscal você vai ter que fazê-lo.
Mas se tiver que acontecer, lembre-se: faça rápido, de uma vez.
Afinal o pelos crescem de novo.
Saturday, September 29, 2007
Atualização.
O problema de ficar muito tempo sem postar é que os assuntos vão se acumulando.
Aí você pensa no tempo que vai demorar para escrever tudo que tem em mente, fica cansado só de imaginar e deixa para o dia seguinte. Claro que no dia seguinte você se lembra de outras coisas para contar e ainda mais coisas vão acontecer - e que vai demorar ainda mais tempo para escrever tudo. Este ciclo vicioso às vezes te deixa meses sem ânimo para escrever.
No final a sensação é que você deveria esquecer o blog e começar - e finalizar - um livro.
Deixo aqui postada a minha palavra de escoteiro de que vou tentar manter as histórias em dia. E se não conseguir, escrevo o bendito livro.
O problema de ficar muito tempo sem postar é que os assuntos vão se acumulando.
Aí você pensa no tempo que vai demorar para escrever tudo que tem em mente, fica cansado só de imaginar e deixa para o dia seguinte. Claro que no dia seguinte você se lembra de outras coisas para contar e ainda mais coisas vão acontecer - e que vai demorar ainda mais tempo para escrever tudo. Este ciclo vicioso às vezes te deixa meses sem ânimo para escrever.
No final a sensação é que você deveria esquecer o blog e começar - e finalizar - um livro.
Deixo aqui postada a minha palavra de escoteiro de que vou tentar manter as histórias em dia. E se não conseguir, escrevo o bendito livro.
Friday, August 03, 2007
Lição de casa.
No último domingo dei uma comida de rabo histórica em todo o departamento de criação.
Tínhamos um projeto fantástico, com toda a liberdade do mundo para fazer algo único, revolucionário, instigante, divertido e surpreendente. O prazo era quase irreal para uma agência de propaganda: um mês inteiro.
A única coisa obrigatória: o projeto tinha que ser produzido. No caso deveria ser um comercial para internet filmado com uma câmera digital.
Finalmente chega o dia em que eles iriam apresentar as idéias para mim.
45 pessoas tiveram a chance de apresentar alguma coisa.
Nada.
Nada que prestasse. Desapontamento profundo.
É aí que chegamos ao tema deste post. Ser adulto.
No dia da apresentação vi as pessoas sentando desesperadas para criar alguma coisa que pudesse ser apresentada. Como crianças que esqueceram a lição de casa e que tentam fazer tudo nos poucos minutos que restam antes da professora entrar na sala.
Eu já estive na mesma situação. Mas do outro lado. E não só como aluno numa classe de aula, mas também como profissional, terminando uma campanha 5 minutos antes da apresentação.
Infantil.
A diferença agora é que esperam que você seja o adulto. Você é que tem que ser o Superego para aquele bando de Ids.
Essa transição não ocorre sem sofrimento.
Ei, por dentro eu ainda me sinto aquele mesmo moleque que esquecia a lição de casa porque ficou jogando futebol - mal - na tarde anterior.
Mas você agora é o cara. Você é o professor, pai, chefe, o adulto.
É você que premia e pune.
E é esperado que você puna as crianças fizeram algo errado - mesmo que estas crianças em questão tenham apenas alguns anos menos que você.
E é por isso que eu estava lá comendo o rabo de mais de 30 criativos.
E ninguém deu um pio.
Porque eu sou o adulto.
Mesmo que por dentro ainda me sinta como o moleque que vivia esquecendo a lição de casa.
No último domingo dei uma comida de rabo histórica em todo o departamento de criação.
Tínhamos um projeto fantástico, com toda a liberdade do mundo para fazer algo único, revolucionário, instigante, divertido e surpreendente. O prazo era quase irreal para uma agência de propaganda: um mês inteiro.
A única coisa obrigatória: o projeto tinha que ser produzido. No caso deveria ser um comercial para internet filmado com uma câmera digital.
Finalmente chega o dia em que eles iriam apresentar as idéias para mim.
45 pessoas tiveram a chance de apresentar alguma coisa.
Nada.
Nada que prestasse. Desapontamento profundo.
É aí que chegamos ao tema deste post. Ser adulto.
No dia da apresentação vi as pessoas sentando desesperadas para criar alguma coisa que pudesse ser apresentada. Como crianças que esqueceram a lição de casa e que tentam fazer tudo nos poucos minutos que restam antes da professora entrar na sala.
Eu já estive na mesma situação. Mas do outro lado. E não só como aluno numa classe de aula, mas também como profissional, terminando uma campanha 5 minutos antes da apresentação.
Infantil.
A diferença agora é que esperam que você seja o adulto. Você é que tem que ser o Superego para aquele bando de Ids.
Essa transição não ocorre sem sofrimento.
Ei, por dentro eu ainda me sinto aquele mesmo moleque que esquecia a lição de casa porque ficou jogando futebol - mal - na tarde anterior.
Mas você agora é o cara. Você é o professor, pai, chefe, o adulto.
É você que premia e pune.
E é esperado que você puna as crianças fizeram algo errado - mesmo que estas crianças em questão tenham apenas alguns anos menos que você.
E é por isso que eu estava lá comendo o rabo de mais de 30 criativos.
E ninguém deu um pio.
Porque eu sou o adulto.
Mesmo que por dentro ainda me sinta como o moleque que vivia esquecendo a lição de casa.
Monday, June 25, 2007
A Pajero Morreu. Viva a Pajero.
Costumava dizer que não tinha um carro, tinha um relacionamento.
E, como uma boa parte dos relacionamentos, acabou de uma forma horrível.
Eu sei que a Pajero sempre foi uma fonte segura de histórias engraçadas - de se contar, não de se viver, diga-se de passagem.
Nada como ficar náufrago em uma das estradas mais movimentadas e perigosas do Oriente Médio - e por consequência do mundo - num sábado à noite no meio tempestade de areia COM CHUVA. (Acho que isso foi um quadro de um programa de pegadinhas produzido por uma super-inteligência alienígena)
Nada como o radiador explodir e te deixar não mão por algumas horas em um dos dias mais quentes do ano.
E tem mais, muito mais.
Há uns 3 meses mais ou menos aconteceu de novo.
Estava na fase final de produção do comercial de Ford Edge. Caro, complicado e com mil e um problemas durante a filmagem finalmente chegou o momento de ver a edição final feita pelo diretor.
Todo o projeto já tinha sido traumático.
Um diretor despreparado e fraco - não sabíamos porque como é comum aqui, ele foi "importado" para o projeto. Estávamos comprando um amontoado de comerciais interessantes e a promessa de que ele era o cara que precisávamos, feita pela companhia que estava produzindo o projeto. Não era.
Uma produção cheia de problemas, desapontamentos e discussões.
Efeitos especiais que não foram.
E, finalmente, a edição final das imagens...
Não funcionou. A edição ficou péssima, a história que queríamos contar não estava lá. Tudo errado.
Aí, tal qual o juiz Nicholas Marshall, tive que fazer justiça com as próprias mãos. Mandamos o diretor embora e sentei na ilha de edição e fiz a minha versão, que acabou indo para o ar.
Mas isso é só parte da história. Isso porque estamos aqui para falar da Pajero. E é claro que a Pajero estava lá para deixar a história mais interessante...
Voltando um pouco no tempo, a gente tinha combinado com um grupo de amigos brasileiros passar o fim de semana no Sandy Beach Hotel em Fujeirah, agora conhecido como Sandy Júnior Hotel. Para os meus leitores assíduos, Sandy Beach é o hotel onde aconteceu o episódio da areia quente.
Iamos passar o final de semana lá com a moçada brazuca. Praia, churrasco, cerveja e muito bate-papo. Receita de sucesso.
Voltando ainda mais no tempo. Imagine a sua esposa proprietária de um carro de luxo com a revisão atrasada. Agora imagine o marido pentelhando a cada 3 dias para que ela fizesse a revisão. Então imagine que a esposa está trabalhando num lançamento para um mega-produto e não tem tempo - nem cabeça - para levar o carro para revisão. E não deixe de levar em consideração que ela estava fazendo o trabalho de pelo menos 4 pessoas. Agora pense em um marido que continua pentelhando para levar o carro para a revisão, apesar de tudo.
No final o marido triunfa! Sim, vamos levar o carro para revisão.
Mas a gente viaja hoje à noite para a praia, diz ela.
Não tem problema. A gente deixa seu carro para a revisão de manhã e ele fica pronto no fim do dia, diz ele.
Esta revisão vai tomar 2 dias. Diz o sujeito responsável pela oficina na Nissan. Vocês gostariam de apenas trocar o óleo e fazer a primeira parte hoje e depois deixar o carro para o resto?
Não. Vamos deixar o carro aqui de uma vez. Pára de adiar essa coisa. A gente vai com a Pajero, diz o marido cheio de confiança.
E, como eu tenho que passar o dia na produtora fazendo a edição final do comercial, você já pode ficar com meu carro, diz ele ainda mais feliz como sua capacidade de arrumar soluções brilhantes para problemas complexos, fazendo tudo parecer simples.
OK, diz ela sem muito entusiasmo.
O primeiro sinal de que iria ser um longo dia apareceu quando fomos pegar a Pajero. Ela não ligava. Não tem problema, é só dar uma mexidinha no cabo da bateria que tudo funciona. E funcionou.
O combinado era que ela iria me pegar na produtora e estaríamos na estrada no começo da noite. Se tudo desse certo seis da tarde já estaríamos indo rumo à praia.
Claro que não deu.
Imaginem o cenário: uma esposa furiosa esperando no carro por quase 2 horas e um marido se sentindo como um revolucionário mexicano indo para o paredón - lutando por uma grande causa, mas sem esperanças de sobrevivência. Foram umas vinte chamadas falando "só mais 5 minutinhos".
Aí vem a ligação dela.
"Vou até um posto de gasolina para comprar algo para comer. Nós duas estamos famintas."
Para vocês terem uma idéia, me senti como uma gazela acuada por uma leoa que passou 3 semanas comendo só iogurte light.
10 minutos depois - e 2 horas e pouco depois da hora combinada - finalmente saio da produtora. E ali está ela, minha adorada esposa e minha linda filhinha me esperando na minha fantástica Pajero.
Foi rápido, falei. Nós não fomos, ela respondeu.
– ??????
O carro não está ligando, ela completou.
E não só não estava ligando como não ligou por outros 10 dias. E dessa vez não era a bateria, era algo muito mais complicado - e caro, para variar.
Ali estávamos nós nominalmente com 2 carros mas com nenhum carro real.
Derrotados e estressadíssimos, voltamos para casa, de taxi. Chega de viagem, quero a paz da não-existência.
Mas admitir a derrota seria demais. Ainda mais porque estávamos pagando pelo hotel.
No final acabamos alugando um carro e indo para a praia - isso mesmo, alugando um carro.
Praia, churrasco, cerveja, mergulho, muito bate-papo e nada de queimar o pé na areia quente.
Mas as aventuras com a Pajero não pararam aí. Acho que nosso relacionamento pode ser comparado com o dos personagens de A Guerra dos Roses. Só que neste caso era só eu que levava na cabeça. Eu pensava em divórcio mas, como todo relacionamento ruim, a gente vai levando. Resta a esperança de que um dia as coisas vão melhorar.
Em relacionamentos ruins sempre existe uma chance.
Mas acreditem em mim quando digo algo sobre carros velhos: as coisas só pioram.
Óbvio que o conserto saiu caro para caramba, demorou muito mais do que o esperado e os caras não fizeram tudo direito. Melhor ainda porque eu fiz tudo na concessionária, para ter certeza de que o carro ia receber o melhor serviço disponível.
Uma beleza.
Corta para três meses depois. Três meses sem problema no carro. Começo a achar que ainda há esperança. É uma sexta-feira - o que para equivale ao sábado para o planeta Tupiniquim. É um dia complicadíssimo. Tem um almoço com amigos, uma apresentação grande de campanha - que por coincidência era para uma empresa brasileira, que por coincidência era conta mundial da Y&R, e por coincidência parte da galera brazuca que estava no almoço ia estar na apresentação porque eles trabalham na tal empresa, a Perdigão - Perdix aqui no Oriente Médio e no resto do mundo - e logo depois da apresentação é hora de voltar para casa correndo porque minha digníssima esposa e minha filhota estão indo para a França para passar 10 dias com meus sogros, que estão dando um rolê pelo velho continente antes de darem uma parada nas quentes areias da Las Vegas do Oriente Médio.
Vamos adicionar um grau de dificuldade maior na coisa toda: o carro da minha digníssima esposa está com o licenciamento atrasado em sem seguro. Qual a solução? Vamos de Pajero!
O almoço para mim foi quase um pitstop. Comi 10% do que gostaria, 1% dos itens disponíveis no ultra-mega buffet master-blaster em que fomos. (Acho que o hotel era o Crowne Plaza) E, claro, paguei o preço inteiro. Acho que a única coisa que não tinha disponível era carne de cachorro, mas não tenho certeza, não deu tempo de ver tudo.
De lá corro para a agência para dar uma última olhada no trabalho antes da apresentação - de taxi. Minha digníssima fica com o carro porque tem que voltar para casa e aprontar as malas.
Óbvio que a apresentação que a gente imaginava que iria durar apenas uma hora acaba tomando quase 3 horas.
Depois do taxi para casa sobram apenas algumas horas antes de ir para o aeroporto. E todo mundo sabe como mulheres são seres tensos quando estão preparando as malas. Parece que elas estão se preparando para um holocausto nuclear logo depois que os mísseis foram lançados.
Se faltar uma escova de dente a espécie humana corre o risco de extinção.
Bom, pelo menos é esta a sensação.
Saímos duas horas e meia antes do vôo - tempo que não é o suficiente para se sentir completamente confortável, mas em meia horinha a gente chega lá. Vai dar tudo certo.
Com a Carolina vai dormindo no banco de trás a Dri me anuncia:
- Não consegui trocar dinheiro.
- O que??!!!
Tensão no ar.
- Não deu tempo. Fiquei arrumando as coisas e esperei você me ligar.
- Eu entendo completamente. Você estava ocupadíssima nos 20 dias que antecederam a viagem e não conseguiu dar uma parada para trocar dinheiro e agora deixou tudo para o último minuto...
Uma coisa que eu não admito é que minha esposa aja exatamente como eu. Como a gente pode imaginar que um relacionamente funcione deste jeito?
Complicado, mas com uma solução à vista. É só passar num caixa automático, tirar dinheiro e trocar em uma casa de câmbio no aeroporto.
Foi exatamente quando eu estava fazendo meus planos para resolver este pequeno problema que o batuque começou.
Foi aí que o GRANDE PROBLEMA começou.
O batuque é o barulho que a Pajero faz quando o motor tem um superaquecimento. Parece o som de uma escola de samba em que a bateria é toda composta por membros da realeza britânica. Imagina a Rainha Elizabeth com um agogô.
É essa a idéia.
So posso dizer que na hora não foi nada engraçado. Isso significava que o carro ia parar a qualquer momento. No meio de uma das estradas mais movimentadas - e perigosas - do Oriente Médio. No meio do deserto, sem um posto de gasolina a vista.
Show de horrores.
Agora imaginem a cena: sua filhinha está dormindo no banco de trás, você está atrasado para pegar um vôo internacional, no meio do deserto, longe de tudo e de todos e com caminhões passando a toda velocidade do seu lado. O que fazer?
Essa é a hora em que sua cabeça começa a funcionar furiosamente para encontrar uma saída. Arrumar um taxi iria demorar demais - sexta-feira à noite é quando todo mundo sai. A primeira idéia foi de dar um jeito do carro funcionar.
Superaquecimento significa falta de água no radiador. Arruma-se água, funciona-se o carro. Simples assim.
Simples quando você não está no meio do deserto e a única água por perto é a saliva na sua boca.
Procurando na bagunça do carro achamos duas garrafinhas de água com um restinho dentro. Um bom começo.
Mas pense duas vezes antes de abrir o radiador e despejar água dentro depois de um superaquecimento. É como ver um gêiser em atividade, sem uma câmera fotográfica para documentar e mostrar para os amigos. Falo isso por experiência própria.
Claro que as garrafinhas não deram nem para o cheiro por isso passei para o plano B - tentar arrumar ajuda com um caminhoneiro para conseguir água para o carro funcionar.
Depois de meia hora acenando para caminhões e sendo quase completamente ignorado (acho que pelo menos uns dois caminhoneiros devem ter pensado em passar por cima de mim só para quebrar a monotonia) chegou o momento "think outside the box". Como Dri já estava tentando entrar em contato com um taxi, sem sorte era a hora de tentar algo diferente, muito diferente.
Agora tente imaginar duas pessoas adultas tentando encher garrafinhas de água com a água do limpador de pára-brisa - com os limpadores de pára-brisa em movimento.
Patético, desesperado e, no fim, inútil porque não deu nem para deixar o radiador úmido.
E o tempo estava passando. Faltava apenas pouco mais de uma hora para o vôo. Hora de tentar algo novo. Novo como torcer para que um taxi aparecesse.
Finalmente, depois de vários alarmes falsos e a sensação de que nada mais podia dar errado, conseguimos que um taxi parasse. Jogamos toda a bagagem no porta-malas e corremos para o aeroporto, abandonando a moribunda Pajero na estrada.
Mas a noite ainda era uma criança.
Chegando no aeroporto uma hora antes do vôo - e sabendo que eles páram o check-in 45 minutos antes da decolagem - não havia espaço para erros. A sensação era de estar jogando um videogame em que o nível de dificuldade só aumenta.
Depois de passar pelo raio-x que dá acesso à area de check-in um funcionário chega para mim e diz que pessoas que não tem passagem não podem ficar na área de check. Começo a xingar ele em português com um sorriso nos lábios, como se estivesse falando as coisas mais doces e amigáveis - coisa que fiz muito naquela noite. Para conseguir ficar lá eu teria que pegar uma permissão, deixar meu documento e, como sempre em Dubai, pagar.
Mas eu ainda precisava pegar o dinheiro para minhas meninas poderem viajar. Deixei as duas no check-in - a Carolina ainda dormindo pesadamente e corri para o caixa eletrônico. Como meu caro leitor já deve estar imaginando, alguma coisa deve ter dado errado. E deu.
Meu cartão não funcionou em um caixa, tentei outro. Nada.
Corri para a área de desembarque onde um tem um saguão com uns 20 caixas automáticos de 14 bancos diferentes. Tentei uns seis e todos deram mesma mensagem - acesso não disponível. Achando que tinha um problema com meu cartão liguei para o banco. Coitado do cara que atendeu a ligação.
Explicação: toda noite, da meia-noite às 2 da manhã os bancos fazem uma consolidação da base de dados e os caixas ficam indisponíveis. Mas provavelmente os sistema já estaria liberado à uma e meia - meia hora depois da decolagem do vôo das minhas mulheres. Lindo.
Por sorte - enfim algo que não deu errado - achei uns dólares perdidos na minha carteira, o suficiente para elas fazerem uma viagem tranquila. De vez em quando vale a pena ser desorganizado.
Agora só faltava entrar na área de check-in para entregar o dinheiro, o que significou pegar a tal permissão, pagar, xingar o funcionário que me barrou de novo em português com uma expressão na minha cara de que ele era o meu melhor amigo. O cara era só sorrisos enquanto eu amaldiçoava até a terceira geração da família do desgraçado. Bom para desestressar.
Beijos e abraços rápidos no embarque e lá vão elas para sua aventura na França - e lá vou tentar resgatar o meu carro abandonado. Eram meia-noite e meia.
Peguei um taxi e pedi para o motorista parar em um posto de gasolina para que eu pudesse comprar água. Comprar água mineral para colocar no radiador me pareceu uma coisa tão ridícula que cheguei a pensar em comprar água mineral com sabor, para tornar a situação ainda mais memorável. Como essa piada iria sair muito cara - e eu seria o único a aproveitá-la - decidi deixar para lá.
Cinco garrafas de água mineral depois o carro continuava tão moribundo como antes. Nenhum sinal de vida. Solução: ligar para um amigo às duas da manhã e pedir para ele te ajudar a achar o telefone de um guincho.
Quatro e meia da manhã finalmente chego em casa derrotado, exaurido, depois de deixar a finada Pajero no pátio de uma oficina mecânica.
Durante a semana o mecânico me liga e diz que o motor já era.
The engine is gone, the engine is no more, it's an ex-engine.
A Pajero se foi.
Um divórcio litigioso que vai custar muito dinheiro para o marido.
Costumava dizer que não tinha um carro, tinha um relacionamento.
E, como uma boa parte dos relacionamentos, acabou de uma forma horrível.
Eu sei que a Pajero sempre foi uma fonte segura de histórias engraçadas - de se contar, não de se viver, diga-se de passagem.
Nada como ficar náufrago em uma das estradas mais movimentadas e perigosas do Oriente Médio - e por consequência do mundo - num sábado à noite no meio tempestade de areia COM CHUVA. (Acho que isso foi um quadro de um programa de pegadinhas produzido por uma super-inteligência alienígena)
Nada como o radiador explodir e te deixar não mão por algumas horas em um dos dias mais quentes do ano.
E tem mais, muito mais.
Há uns 3 meses mais ou menos aconteceu de novo.
Estava na fase final de produção do comercial de Ford Edge. Caro, complicado e com mil e um problemas durante a filmagem finalmente chegou o momento de ver a edição final feita pelo diretor.
Todo o projeto já tinha sido traumático.
Um diretor despreparado e fraco - não sabíamos porque como é comum aqui, ele foi "importado" para o projeto. Estávamos comprando um amontoado de comerciais interessantes e a promessa de que ele era o cara que precisávamos, feita pela companhia que estava produzindo o projeto. Não era.
Uma produção cheia de problemas, desapontamentos e discussões.
Efeitos especiais que não foram.
E, finalmente, a edição final das imagens...
Não funcionou. A edição ficou péssima, a história que queríamos contar não estava lá. Tudo errado.
Aí, tal qual o juiz Nicholas Marshall, tive que fazer justiça com as próprias mãos. Mandamos o diretor embora e sentei na ilha de edição e fiz a minha versão, que acabou indo para o ar.
Mas isso é só parte da história. Isso porque estamos aqui para falar da Pajero. E é claro que a Pajero estava lá para deixar a história mais interessante...
Voltando um pouco no tempo, a gente tinha combinado com um grupo de amigos brasileiros passar o fim de semana no Sandy Beach Hotel em Fujeirah, agora conhecido como Sandy Júnior Hotel. Para os meus leitores assíduos, Sandy Beach é o hotel onde aconteceu o episódio da areia quente.
Iamos passar o final de semana lá com a moçada brazuca. Praia, churrasco, cerveja e muito bate-papo. Receita de sucesso.
Voltando ainda mais no tempo. Imagine a sua esposa proprietária de um carro de luxo com a revisão atrasada. Agora imagine o marido pentelhando a cada 3 dias para que ela fizesse a revisão. Então imagine que a esposa está trabalhando num lançamento para um mega-produto e não tem tempo - nem cabeça - para levar o carro para revisão. E não deixe de levar em consideração que ela estava fazendo o trabalho de pelo menos 4 pessoas. Agora pense em um marido que continua pentelhando para levar o carro para a revisão, apesar de tudo.
No final o marido triunfa! Sim, vamos levar o carro para revisão.
Mas a gente viaja hoje à noite para a praia, diz ela.
Não tem problema. A gente deixa seu carro para a revisão de manhã e ele fica pronto no fim do dia, diz ele.
Esta revisão vai tomar 2 dias. Diz o sujeito responsável pela oficina na Nissan. Vocês gostariam de apenas trocar o óleo e fazer a primeira parte hoje e depois deixar o carro para o resto?
Não. Vamos deixar o carro aqui de uma vez. Pára de adiar essa coisa. A gente vai com a Pajero, diz o marido cheio de confiança.
E, como eu tenho que passar o dia na produtora fazendo a edição final do comercial, você já pode ficar com meu carro, diz ele ainda mais feliz como sua capacidade de arrumar soluções brilhantes para problemas complexos, fazendo tudo parecer simples.
OK, diz ela sem muito entusiasmo.
O primeiro sinal de que iria ser um longo dia apareceu quando fomos pegar a Pajero. Ela não ligava. Não tem problema, é só dar uma mexidinha no cabo da bateria que tudo funciona. E funcionou.
O combinado era que ela iria me pegar na produtora e estaríamos na estrada no começo da noite. Se tudo desse certo seis da tarde já estaríamos indo rumo à praia.
Claro que não deu.
Imaginem o cenário: uma esposa furiosa esperando no carro por quase 2 horas e um marido se sentindo como um revolucionário mexicano indo para o paredón - lutando por uma grande causa, mas sem esperanças de sobrevivência. Foram umas vinte chamadas falando "só mais 5 minutinhos".
Aí vem a ligação dela.
"Vou até um posto de gasolina para comprar algo para comer. Nós duas estamos famintas."
Para vocês terem uma idéia, me senti como uma gazela acuada por uma leoa que passou 3 semanas comendo só iogurte light.
10 minutos depois - e 2 horas e pouco depois da hora combinada - finalmente saio da produtora. E ali está ela, minha adorada esposa e minha linda filhinha me esperando na minha fantástica Pajero.
Foi rápido, falei. Nós não fomos, ela respondeu.
– ??????
O carro não está ligando, ela completou.
E não só não estava ligando como não ligou por outros 10 dias. E dessa vez não era a bateria, era algo muito mais complicado - e caro, para variar.
Ali estávamos nós nominalmente com 2 carros mas com nenhum carro real.
Derrotados e estressadíssimos, voltamos para casa, de taxi. Chega de viagem, quero a paz da não-existência.
Mas admitir a derrota seria demais. Ainda mais porque estávamos pagando pelo hotel.
No final acabamos alugando um carro e indo para a praia - isso mesmo, alugando um carro.
Praia, churrasco, cerveja, mergulho, muito bate-papo e nada de queimar o pé na areia quente.
Mas as aventuras com a Pajero não pararam aí. Acho que nosso relacionamento pode ser comparado com o dos personagens de A Guerra dos Roses. Só que neste caso era só eu que levava na cabeça. Eu pensava em divórcio mas, como todo relacionamento ruim, a gente vai levando. Resta a esperança de que um dia as coisas vão melhorar.
Em relacionamentos ruins sempre existe uma chance.
Mas acreditem em mim quando digo algo sobre carros velhos: as coisas só pioram.
Óbvio que o conserto saiu caro para caramba, demorou muito mais do que o esperado e os caras não fizeram tudo direito. Melhor ainda porque eu fiz tudo na concessionária, para ter certeza de que o carro ia receber o melhor serviço disponível.
Uma beleza.
Corta para três meses depois. Três meses sem problema no carro. Começo a achar que ainda há esperança. É uma sexta-feira - o que para equivale ao sábado para o planeta Tupiniquim. É um dia complicadíssimo. Tem um almoço com amigos, uma apresentação grande de campanha - que por coincidência era para uma empresa brasileira, que por coincidência era conta mundial da Y&R, e por coincidência parte da galera brazuca que estava no almoço ia estar na apresentação porque eles trabalham na tal empresa, a Perdigão - Perdix aqui no Oriente Médio e no resto do mundo - e logo depois da apresentação é hora de voltar para casa correndo porque minha digníssima esposa e minha filhota estão indo para a França para passar 10 dias com meus sogros, que estão dando um rolê pelo velho continente antes de darem uma parada nas quentes areias da Las Vegas do Oriente Médio.
Vamos adicionar um grau de dificuldade maior na coisa toda: o carro da minha digníssima esposa está com o licenciamento atrasado em sem seguro. Qual a solução? Vamos de Pajero!
O almoço para mim foi quase um pitstop. Comi 10% do que gostaria, 1% dos itens disponíveis no ultra-mega buffet master-blaster em que fomos. (Acho que o hotel era o Crowne Plaza) E, claro, paguei o preço inteiro. Acho que a única coisa que não tinha disponível era carne de cachorro, mas não tenho certeza, não deu tempo de ver tudo.
De lá corro para a agência para dar uma última olhada no trabalho antes da apresentação - de taxi. Minha digníssima fica com o carro porque tem que voltar para casa e aprontar as malas.
Óbvio que a apresentação que a gente imaginava que iria durar apenas uma hora acaba tomando quase 3 horas.
Depois do taxi para casa sobram apenas algumas horas antes de ir para o aeroporto. E todo mundo sabe como mulheres são seres tensos quando estão preparando as malas. Parece que elas estão se preparando para um holocausto nuclear logo depois que os mísseis foram lançados.
Se faltar uma escova de dente a espécie humana corre o risco de extinção.
Bom, pelo menos é esta a sensação.
Saímos duas horas e meia antes do vôo - tempo que não é o suficiente para se sentir completamente confortável, mas em meia horinha a gente chega lá. Vai dar tudo certo.
Com a Carolina vai dormindo no banco de trás a Dri me anuncia:
- Não consegui trocar dinheiro.
- O que??!!!
Tensão no ar.
- Não deu tempo. Fiquei arrumando as coisas e esperei você me ligar.
- Eu entendo completamente. Você estava ocupadíssima nos 20 dias que antecederam a viagem e não conseguiu dar uma parada para trocar dinheiro e agora deixou tudo para o último minuto...
Uma coisa que eu não admito é que minha esposa aja exatamente como eu. Como a gente pode imaginar que um relacionamente funcione deste jeito?
Complicado, mas com uma solução à vista. É só passar num caixa automático, tirar dinheiro e trocar em uma casa de câmbio no aeroporto.
Foi exatamente quando eu estava fazendo meus planos para resolver este pequeno problema que o batuque começou.
Foi aí que o GRANDE PROBLEMA começou.
O batuque é o barulho que a Pajero faz quando o motor tem um superaquecimento. Parece o som de uma escola de samba em que a bateria é toda composta por membros da realeza britânica. Imagina a Rainha Elizabeth com um agogô.
É essa a idéia.
So posso dizer que na hora não foi nada engraçado. Isso significava que o carro ia parar a qualquer momento. No meio de uma das estradas mais movimentadas - e perigosas - do Oriente Médio. No meio do deserto, sem um posto de gasolina a vista.
Show de horrores.
Agora imaginem a cena: sua filhinha está dormindo no banco de trás, você está atrasado para pegar um vôo internacional, no meio do deserto, longe de tudo e de todos e com caminhões passando a toda velocidade do seu lado. O que fazer?
Essa é a hora em que sua cabeça começa a funcionar furiosamente para encontrar uma saída. Arrumar um taxi iria demorar demais - sexta-feira à noite é quando todo mundo sai. A primeira idéia foi de dar um jeito do carro funcionar.
Superaquecimento significa falta de água no radiador. Arruma-se água, funciona-se o carro. Simples assim.
Simples quando você não está no meio do deserto e a única água por perto é a saliva na sua boca.
Procurando na bagunça do carro achamos duas garrafinhas de água com um restinho dentro. Um bom começo.
Mas pense duas vezes antes de abrir o radiador e despejar água dentro depois de um superaquecimento. É como ver um gêiser em atividade, sem uma câmera fotográfica para documentar e mostrar para os amigos. Falo isso por experiência própria.
Claro que as garrafinhas não deram nem para o cheiro por isso passei para o plano B - tentar arrumar ajuda com um caminhoneiro para conseguir água para o carro funcionar.
Depois de meia hora acenando para caminhões e sendo quase completamente ignorado (acho que pelo menos uns dois caminhoneiros devem ter pensado em passar por cima de mim só para quebrar a monotonia) chegou o momento "think outside the box". Como Dri já estava tentando entrar em contato com um taxi, sem sorte era a hora de tentar algo diferente, muito diferente.
Agora tente imaginar duas pessoas adultas tentando encher garrafinhas de água com a água do limpador de pára-brisa - com os limpadores de pára-brisa em movimento.
Patético, desesperado e, no fim, inútil porque não deu nem para deixar o radiador úmido.
E o tempo estava passando. Faltava apenas pouco mais de uma hora para o vôo. Hora de tentar algo novo. Novo como torcer para que um taxi aparecesse.
Finalmente, depois de vários alarmes falsos e a sensação de que nada mais podia dar errado, conseguimos que um taxi parasse. Jogamos toda a bagagem no porta-malas e corremos para o aeroporto, abandonando a moribunda Pajero na estrada.
Mas a noite ainda era uma criança.
Chegando no aeroporto uma hora antes do vôo - e sabendo que eles páram o check-in 45 minutos antes da decolagem - não havia espaço para erros. A sensação era de estar jogando um videogame em que o nível de dificuldade só aumenta.
Depois de passar pelo raio-x que dá acesso à area de check-in um funcionário chega para mim e diz que pessoas que não tem passagem não podem ficar na área de check. Começo a xingar ele em português com um sorriso nos lábios, como se estivesse falando as coisas mais doces e amigáveis - coisa que fiz muito naquela noite. Para conseguir ficar lá eu teria que pegar uma permissão, deixar meu documento e, como sempre em Dubai, pagar.
Mas eu ainda precisava pegar o dinheiro para minhas meninas poderem viajar. Deixei as duas no check-in - a Carolina ainda dormindo pesadamente e corri para o caixa eletrônico. Como meu caro leitor já deve estar imaginando, alguma coisa deve ter dado errado. E deu.
Meu cartão não funcionou em um caixa, tentei outro. Nada.
Corri para a área de desembarque onde um tem um saguão com uns 20 caixas automáticos de 14 bancos diferentes. Tentei uns seis e todos deram mesma mensagem - acesso não disponível. Achando que tinha um problema com meu cartão liguei para o banco. Coitado do cara que atendeu a ligação.
Explicação: toda noite, da meia-noite às 2 da manhã os bancos fazem uma consolidação da base de dados e os caixas ficam indisponíveis. Mas provavelmente os sistema já estaria liberado à uma e meia - meia hora depois da decolagem do vôo das minhas mulheres. Lindo.
Por sorte - enfim algo que não deu errado - achei uns dólares perdidos na minha carteira, o suficiente para elas fazerem uma viagem tranquila. De vez em quando vale a pena ser desorganizado.
Agora só faltava entrar na área de check-in para entregar o dinheiro, o que significou pegar a tal permissão, pagar, xingar o funcionário que me barrou de novo em português com uma expressão na minha cara de que ele era o meu melhor amigo. O cara era só sorrisos enquanto eu amaldiçoava até a terceira geração da família do desgraçado. Bom para desestressar.
Beijos e abraços rápidos no embarque e lá vão elas para sua aventura na França - e lá vou tentar resgatar o meu carro abandonado. Eram meia-noite e meia.
Peguei um taxi e pedi para o motorista parar em um posto de gasolina para que eu pudesse comprar água. Comprar água mineral para colocar no radiador me pareceu uma coisa tão ridícula que cheguei a pensar em comprar água mineral com sabor, para tornar a situação ainda mais memorável. Como essa piada iria sair muito cara - e eu seria o único a aproveitá-la - decidi deixar para lá.
Cinco garrafas de água mineral depois o carro continuava tão moribundo como antes. Nenhum sinal de vida. Solução: ligar para um amigo às duas da manhã e pedir para ele te ajudar a achar o telefone de um guincho.
Quatro e meia da manhã finalmente chego em casa derrotado, exaurido, depois de deixar a finada Pajero no pátio de uma oficina mecânica.
Durante a semana o mecânico me liga e diz que o motor já era.
The engine is gone, the engine is no more, it's an ex-engine.
A Pajero se foi.
Um divórcio litigioso que vai custar muito dinheiro para o marido.
Tuesday, June 12, 2007
2 anos.
Dia 12 de junho de 2005 foi o dia em que deixei o Brasil.
Quando cheguei aqui e passei minhas primeiras semanas pensava que não ia aguentar dois meses.
Quanto tempo tenho que ficar num lugar para poder dizer que morei lá? Seis meses? Nove meses?
Não posso fraquejar, pensava. Todo mundo está na maior expectativa para que minhas aventuras dêem certo...
Tem horas que o espírito aventureiro não é o suficiente para te manter no curso.
Nos primeiros meses o medo de decepcionar as pessoas ajudou bastante a engolir a saudade e seguir em frente.
O iPod também ajudou.
Ler tudo que caía na minha mão também.
Mergulhar de cabeça no trabalho ajudava a passar o tempo.
Ir ao cinema, escrever no blog, comer cachorro-quente...
2 empregos, duas casas, um carro que vive quebrando desde o começo (rende boas histórias mas garanto que não é nada divertido vivê-las) e continua quebrando um ano e meio depois, muitos cachorros-quentes, muitos cachorros-quentes depois estou aqui.
730 dias que parecem que foram 7.300.
Às vezes parecem apenas duas semanas.
Mas dois anos são o suficiente para contar para os amigos que você morou fora, não acha?
Dia 12 de junho de 2005 foi o dia em que deixei o Brasil.
Quando cheguei aqui e passei minhas primeiras semanas pensava que não ia aguentar dois meses.
Quanto tempo tenho que ficar num lugar para poder dizer que morei lá? Seis meses? Nove meses?
Não posso fraquejar, pensava. Todo mundo está na maior expectativa para que minhas aventuras dêem certo...
Tem horas que o espírito aventureiro não é o suficiente para te manter no curso.
Nos primeiros meses o medo de decepcionar as pessoas ajudou bastante a engolir a saudade e seguir em frente.
O iPod também ajudou.
Ler tudo que caía na minha mão também.
Mergulhar de cabeça no trabalho ajudava a passar o tempo.
Ir ao cinema, escrever no blog, comer cachorro-quente...
2 empregos, duas casas, um carro que vive quebrando desde o começo (rende boas histórias mas garanto que não é nada divertido vivê-las) e continua quebrando um ano e meio depois, muitos cachorros-quentes, muitos cachorros-quentes depois estou aqui.
730 dias que parecem que foram 7.300.
Às vezes parecem apenas duas semanas.
Mas dois anos são o suficiente para contar para os amigos que você morou fora, não acha?
Thursday, June 07, 2007
"Por que fazer hoje algo que você pode fazer amanhã?"
Barão de Itararé
Venho ensaiando uma volta aos posts faz um tempo.
De vez em quando tem coisas que você precisa - e mesmo deseja ardentemente - fazer, mas a inércia te faz adiar o máximo possível, sem razão aparente.
Na minha cabeça as coisas funcionaram mais ou menos assim:
"Hoje eu sento e escrevo alguma coisa"
"Amanhã de manhã sem falta deixo alguma coisa escrita"
"Vou só checar umas coisas na internet aí escrevo algo no blog"
"Pô, estou cheio de histórias para contar, preciso dar uma paradinha e atualizar o blog"
"Vou resolver uns probleminhas e depois sento atualizo o blog"
"Vou jogar uma partida de paciência e depois escrevo um post"
"Deixa eu existir por um tempinho e depois vou ver se encontro uma horinha para escrever"
Desculpas nunca faltam. Falta de tempo, falta de espaço na cabeça, falta de assunto, bad hair day, espinha na nuca, muito sal na comida, falta de inspiração, calor, crise política no Quiguistão, muita pimenta na comida, muita comida, falta de talento para escrever, falta de assunto, sapato apertado, resfriado, muita pressão no trabalho, mal humor, falta de assunto e até mesmo falta de assunto.
Dizem que se o ser humano sempre encontra maneiras de justificar suas ações - ou ausência delas.
A gente encontra justificativas para comprar aquele vestinho m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, para comer aquela bomba de chocolate extra, para corrupção, para destruir o meio ambiente, para exterminar grupos étnicos e até para atos imperdoáveis e sérios como assistir Faustão num domingo à tarde.
Podia ser pior, podia ser Zorra Total. (Programa que aliás, desejo que esteja extinto)
E de desculpa em desculpa se passaram quase 2 meses...
O que será que meus fiéis milhares de leitores vão pensar?
Bom, hoje consegui quebrar o gelo e sentei para escrever uma coisa - qualquer coisa - que fizesse este confessionário-livro de crônicas-bloco de rascunhos-carta de apresentação virtual voltar a ter um significado e uma participação na minha vida.
Dizia Lélis Sanches, pupilo e amigo, que se uma pessoa faz uma coisa por 20 dias seguidos ela se transforma em hábito.
Só faltam 19.
Ei, se você ainda está aí, fique sintonizado.
Barão de Itararé
Venho ensaiando uma volta aos posts faz um tempo.
De vez em quando tem coisas que você precisa - e mesmo deseja ardentemente - fazer, mas a inércia te faz adiar o máximo possível, sem razão aparente.
Na minha cabeça as coisas funcionaram mais ou menos assim:
"Hoje eu sento e escrevo alguma coisa"
"Amanhã de manhã sem falta deixo alguma coisa escrita"
"Vou só checar umas coisas na internet aí escrevo algo no blog"
"Pô, estou cheio de histórias para contar, preciso dar uma paradinha e atualizar o blog"
"Vou resolver uns probleminhas e depois sento atualizo o blog"
"Vou jogar uma partida de paciência e depois escrevo um post"
"Deixa eu existir por um tempinho e depois vou ver se encontro uma horinha para escrever"
Desculpas nunca faltam. Falta de tempo, falta de espaço na cabeça, falta de assunto, bad hair day, espinha na nuca, muito sal na comida, falta de inspiração, calor, crise política no Quiguistão, muita pimenta na comida, muita comida, falta de talento para escrever, falta de assunto, sapato apertado, resfriado, muita pressão no trabalho, mal humor, falta de assunto e até mesmo falta de assunto.
Dizem que se o ser humano sempre encontra maneiras de justificar suas ações - ou ausência delas.
A gente encontra justificativas para comprar aquele vestinho m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, para comer aquela bomba de chocolate extra, para corrupção, para destruir o meio ambiente, para exterminar grupos étnicos e até para atos imperdoáveis e sérios como assistir Faustão num domingo à tarde.
Podia ser pior, podia ser Zorra Total. (Programa que aliás, desejo que esteja extinto)
E de desculpa em desculpa se passaram quase 2 meses...
O que será que meus fiéis milhares de leitores vão pensar?
Bom, hoje consegui quebrar o gelo e sentei para escrever uma coisa - qualquer coisa - que fizesse este confessionário-livro de crônicas-bloco de rascunhos-carta de apresentação virtual voltar a ter um significado e uma participação na minha vida.
Dizia Lélis Sanches, pupilo e amigo, que se uma pessoa faz uma coisa por 20 dias seguidos ela se transforma em hábito.
Só faltam 19.
Ei, se você ainda está aí, fique sintonizado.
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