Saturday, December 17, 2005

O Grande Macaco e a pequena cinéfila.

Ontem fomos ao Ibn Battuta Mall para fazer compras. Eram 8 da noite e a Carolina, enfim, estava dormindo no seu carrinho depois de fazer estripulias o dia inteiro.
Idéia da Dri - conhecendo nossa pequena tínhamos certeza que a dona fofinha não acordaria mais naquela noite. Que tal se tentássemos ver de novo King Kong?
De novo porque na quarta nós fomos tentamos assistir com ela. Mas chegou um certo ponto em que as cenas estavam pesadas demais para a nossa pequena e saímos antes da metade do filme - com água na boca.
Lá fomos nós com nosso bebê no carrinho para a sessão das 9 e meia do filme - que tem mais de 3 horas de duração.
Quando peguei a pequena no colo a bichinha acordou. E não pregou mais o olho até o fim. Aliás, ficou com os olhos bem mais abertos que o normal.
Cobrimos seus olhinhos nas cenas mais pesadas - que são pouquinhas, menos de 3 minutos do filme - e ela seguiu alegremente pelo filme, vibrando com tudo que estava acontecendo na tela.
Acho deve ter um gene que codifica a paixão pelo cinema ainda por ser descoberto.

O filme é magnífico. Emocionante, emocional, surpreendente e impressionante.
É um daqueles momentos raros e preciosos em que você se sente novamente como um garoto de 8 anos de idade. O Peter Jackson acertou de novo.

Semana que vem vamos tentar assistir Harry Potter. Mas aí vai ser no Brasil.
Dia 24 estamos chegando na Pindorama.

Wednesday, December 14, 2005

O dia em que a terra tremeu.

Estar em Dubai é sempre interessante. Sempre tem uma novidade para contar. Infelizmente o ritmo da minha vida tem sido tão alucinante que tenho falhado em postar neste blog regularmente. E pode ter certeza que tem muita coisa para acontecendo.
A antepenúltima coisa interessante que aconteceu foi mais um item para entrar no meu currículo.
Estava eu aqui na minha sala no 17o. andar das Emirates Towers, logo depois de comer um típico prato local chamado Big Mac, quando senti que tudo estava balançando. Meu primeiro pensamento foi "o que será que eles colocam neste molho especial?".
Realmente as coisas estavam sacudindo. Era um terremoto.
Interessante que em momentos como este você fica sem ação, sem saber o que fazer, abestalhado, parvo, abobalhado.
Nada na vida pode prever o que acontece em situações inesperadas, você fica a mercê dos seus instintos, da sua capacidade de improvisação e, pior de tudo, do espírito da matilha.
Isso mesmo. Em situações de estresse agimos em bando. Uma inteligência - ou estupidez - coletiva toma conta de todos nós.
Demorou alguns minutos até entendermos o que estava acontecendo. Aí todos fugiram do prédio - tentando preservar as aparências, mas fugindo do mesmo jeito.
Depois de algum tempo a segurança do prédio veio dizer que era seguro voltar, que nada mais ia acontecer.
E, acreditem, as pessoas voltaram!
Tenho certeza que a admnistração do prédio ligou para Princeton e Harvard para colher esta informação antes de passar para a gente...
Em momentos como estes as pessoas voltam a ser crianças. Precisam que alguém mostre o que é certo e errado e que lhes digam o caminho.
Eu demorei mais um pouquinho, para enfatizar minha independência, mas fiz o mesmo no fim.

O que aconteceu foi um terremoto de 6.5 graus na escala Richter com o epicentro em uma cidade do Irã a 250km daqui. Matou algumas pessoas e destruiu umas casas. E foi a primeira vez que um evento como esse foi percebido em Dubai.
A Dri por exemplo só ficou sabendo depois que eu liguei para contar. Pelo jeito só os prédios mais altos - que são como imensos pêndulos - sofreram claramente os efeitos do choque. E as Emirates Towers têm mais de 50 andares.

É muito estranho estar numa situação como esta. É como se o planeta estivessa fazendo uma exclamação que diz claramente "ei, amigos, por mais que você pensem o contrário quem controla as coisas por aqui sou eu".
Faz a gente se sentir bem pequeninho.

Essa eu vou colocar no currículo. E olha que nem estava no pacote...

Monday, December 05, 2005

O Burjo.

Que beleza! Minha filha não só reconhece o Burj Al Arab na paisagem como é apaixonada por este hotel magnífico.
Quando estamos passando pela Sheikh Zayed Road ela nos surpreende gritando "Olha o Burjo!". E lá está ele, enorme e imponente.
Na praia em que vamos - a Jumeira Beach - estamos do lado do hotel. Uma vista impressionante. E ela fica em êxtase.
Isso porque tudo que ela precisa está lá: mamãe, papai, areia para fazer seus bolinhos e o Burjo.
Viu só como a vida pode ser simples?

Sunday, December 04, 2005

Um novo ponto de vista.

Uma coisa muito importante que você aprende depois de chegar a Dubai é que aqui o termo "Camelódromo" tem um significado totalmente diferente.

Thursday, November 24, 2005

Comprei o carro.

Mas isso é assunto para um post completo. Aguardem.
Nem parece Dubai.

As estações vão passando e o clima vai se transformando.
Acreditem ou não à noite chega a fazer frio.
Uma das melhores coisas que eu posso dizer sobre isso é que meu contato com ar-condicionado foi bastante reduzido.
As pessoas aqui têm uma paixão imensa por ar-condicionado. Se você tomasse como exemplo a temperatura que experimentamos em taxis e lugares públicos, iria achar que estamos em um lugar com clima sub-polar.
Pinguins poderiam andar de taxi tranquilamente aqui.
Acho que usar essa maldita caixa de fazer gelo é uma maneira das pessoas daqui se sentirem civilizadas.
Deve ser esta a razão que levou estes alucinados a criar a maior caixa de fazer gelo que se tem notícia.
Semana passada foi inaugurado no Mall of the Emirates - que em si já é um lugar com clima sub-polar - o Ski Dubai.
Isso mesmo, uma pista de esqui indoor no meio do deserto. Nela a paixão local por coisas imensas e por ar-condicionado alcançou o ápice.
A pista de esqui é uma vista surreal que parece um espaçoporto, coisa de ficção científica, A entrada é dentro do Mall of the Emirates, que fica pertinho do Burj Al Arab.
Dentro do Shopping tem janelas enormes onde é possível ver as pessoas brincando alegremente com a neve, jogando bolas de neve umas nas outras, correndo, pulando e agindo como retardadas - tudo que se poderia esperar de gente nesta situação. Infelizmente a pista de esqui ainda não estava liberada - chegar na temperatura adequada e preparar neve suficiente leva meses.
Quem diria que o meu primeiro contato com esqui iria ser no meio do deserto no oriente médio.
Que tal um programa do tipo tomar sol na praia de manhã e esquiar à tarde? E tudo isso separado por apenas 1 km.
Para que achava que já tinha visto de tudo...

Saturday, November 19, 2005

Contrastes.
Dubai é um lugar onde você consegue ver num shopping center uma mulher de ultra-microssaia e, numa virada de pescoço, uma outra vestida toda de preto com o rosto e as mãos totalmente cobertos.
As coisas não são muito normais por aqui...
Meu Brasil brasileiro.
Estar longe do Brasil faz a gente ter comportamentos muito estranhos.
De repente tudo que diz respeito à terra natal ganha um novo significado.
Coisas que não importavam nada passam a ser maravilhosas.
Calma, não vou dizer que sinto falta de assistir televisão no domingo.
Mas estar em comunhão com a Pindorama é algo que a gente tem uma necessidade muito grande.
É tão forte essa necessidade que acabamos fazendo coisas impensáveis.
E hoje pode acontecer uma delas.
Um grande ídolo mundial está dando uma passada nestas terras. E, como em todos os outros lugares, multidões se reúnem para estar perto do mito.
Não, não estamos falando do Michael Jackson ou do Ronaldinho.
Também não é o Pelé.
É ele, o Alquimista, a lenda. O escritor favorito de franceses, iranianos, árabes e russos.
Paulo Coelho está em Dubai.
E hoje tem uma noite de autógrafos na Macgrudy's do Ibn Battuta Mall.
E o pior de tudo: estamos REALMENTE pensando em ir.
Saudades da terrinha fazem a gente se comportar de maneira estranha.

Thursday, November 17, 2005

Aqui em Dubai os carros têm duas opções de combustível:
Os movidos a gasolina e os movidos a muita gasolina.

Sunday, November 13, 2005

Brasil 8x0 Mirrados Árabes Unidos

Que naba! Ontem foi o jogo da seleção local contra a seleção.
Consegui resistir à pressão de 2 meses que a galera da agência fez para eu ir.
Inacreditável!
Ainda bem que eles acreditaram que no Brasil a gente sempre tem a oportunidade de assistir à seleção jogar. Quase todo final de semana a seleção joga pertinho de casa.
Como diria meu grande amigo Alê Guerreiro, dá para falar para eles que tem macaco andando na rua que eles acreditam.
250 dirhams cada ingresso mais a viagem para Abu Dhabi, mais a babá para a Carolina e mais a vontade de ficar traquilinho com a minha família me convenceram a ficar em casa.
O que eu perdi foi uma chuva de gols - que começou na hora que a gente decidiu desligar a televisão.
E como a seleção dos Mirrados é ruim. Devia ser a seleção da Toscana.
Os caras estavam completamente amedrontados com o poder da camisa amarelinha. Até mesmo a Ponte - com o Monga - ganhava de goleada deles.
Metade dos torcedores era do Brasil...espera aí, me disseram que só tinha uns 300 brasileiros aqui...
A câmera passeia e olha só a galera brasileira agitando...pera lá, aquele carinha alegre com a camisa do Brasil trabalha comigo! Um libanês da gema!
Acho que vai ser difícil ver uns brasileiros legítimos.
O Brasil faz sucesso por aqui.
Todo mundo adora torcer pelo mais fraco - mesmo que a coisa fraca aí no Brasil seja a economia e as questões sociais.
A melhor coisa do jogo foi poder assistir a uma transmissão completa sem ouvir o Galvão Bueno. Não dá para ter uma idéia como é bom isso.
Tudo bem que os locutores árabes eram mais animados que locutor de rádio e que se um jogador dos Mirrados chutasse a bola para a lateral eles faziam pelo menos 5 replays, mas foi muito bom ver que eles escreveram o nome do nosso glorioso técnico Perera - e falavam o nome do desgraçado a cada 5 minutos.
Um evento interessantíssimo que transformou um amistoso de boa vontade numa célebre cena de atropelamento, onde repetidamente novas estrelas do futebol tupiniquim passavam por cima da vítima indefesa - aliás INdefesa é uma boa mareira de definir aquela zaga - para garantir sua presença na próxima copa.
Bom, batemos nos bêbado.
Vamos ver o que acontece quando a história for séria.
O bom é chegar no trabalho no dia seguinte e agir como se você tivesse ganhado o jogo.
Nada como ser o representante local de uma franquia de sucesso.

Saturday, November 12, 2005

As coisas em Dubai são tão baratas que a gente gasta tudo economizando.

Sunday, November 06, 2005

Vamos a la playa.

O final de semana ultra-prolongado do fim do Ramadan me deu a oportunidade de fazer várias coisas que fazia tempo que eu tinha vontade de fazer.
Nada era uma delas.
Outra, era finalmente visitar a praia.
Poucas pessoas vão acreditar, mas desde que cheguei a Dubai não fui à praia. Sempre gostei muito de praia, mas a experiência aqui tem sido tão intensa que acabei deixando de lado a idéia, até que recebi um ultimado de minha digníssima e tive que ceder.
Como era sábado e neste dia a principal praia fechada é reservada para mulheres e crianças (meninos só até 8 anos de idade!) resolvemos nos aventurar a ir em uma praia mais afastada na vizinhança de Jebel Ali.
Para quem não sabe - até pouco tempo eu me incluiria neste grupo - Jebel Ali é o lugar onde foi construído o maior porto artificial do mundo e que, dizem, pode ser visto do espaço.
É lá também que eles estão construindo uma daquelas ilhas artificiais com o formato de palmeiras - gigantes e cheias de construções de alto luxo. The Palm Jebel Ali, o empreendimento irmão do The Palm Jumeirah.
Mas a praia....ah a praia...
Pegamos as indicações no guia e lá fomos nós.
Quando chegamos pertinho da praia não tinha mais estrada, só uma estrada de areia batida, mas cheia de marcas.
Vamos por aqui.
Depois de andar um pouco chegamos na dita cuja. E ela estava cheia, lotada de 4x4, que passaram da categoria de figurantes para atores principais nesta minha história de Dubai, tamanha a quantidade.
A galera vai até a areia com elas, monta umas tendinhas e aí começa a farofa.
Tudo digno de Praia Grande, com direito até a churrasco feito na areia.
Fomos indo, indo e...não iu.
O nosso carrinho atolou na areia.
Escolado que já sou depois de ter dado esta mancada outras vezes, parei instantaneamente.
A situação parecia desesperadora, mas lembre-se que tinha mais de 500 4x4 nas redondezas.
Não foi preciso. Desci e consegui, com a ajuda da minha co-pilota no volante, empurrar o carro para fora do atoleiro. Me respeitei.
Paramos o carro num lugar seguro - leia-se areia dura - e fomos para a praia.
Retrato de um pesadelo.
A primeira imagem marcante depois dos carros foi um grupo de malas dirigindo quadriciclos no meio da praia. Não sei o que é pior, o barulho ou os caras passando a toda do seu lado.
E não é só isso!!! Tem mais!!!
Os 4x4 circulam a toda pela areia, tanto no meio quando perto da rebentação (ou arrebentação?). Me senti - nos sentimos - como aquele sapo no jogo antigo de Atari.
Só que a gente não tinha que evitar ser atropelado na rua, mas sim na praia.
Ah, mas pelo menos tinha o mar tranquilo...
Não.
Outro bando de joselitos ficava passando de Jet Ski na beirada, fazendo malabarismo ou puxando outros maletas de wake board.
Pelo menos a Carolina de divertiu. Os papais estavam muito tensos tentando protegê-la dos 48 tipos de perigo disponíveis na praia.
Saímos fugidos de lá.
Para quem veio para cá buscando uma cultura nova, foi uma surpresa encontrar os farofeiros da baixada por aqui.
Só faltou canja na garrafa térmica e Ki-Suco.
Visite Jebel Ali. Mas não me chame.

Friday, November 04, 2005

Rides
Mais um capítulo da minha aventura está acontencendo: a compra de um carro.
As histórias são tantas que vão gerar vários posts.
Só para dar uma pincelada: semana passada fomos eu, a Dri, a fofinha e dois amigos sérvios (eles estavam em outro carro) procurar carro para comprar.
Primeiro fomos em um mercado em Dubai - uma área reservada pelo governo onde eles colocaram umas 120 lojas de carro. Vimos alguns carros e sentimos o clima.
De lá eles nos guiaram para outro mercado em um Emirado vizinho: Sharjah.
Sharjah fica a uns 15 quilômetros do centro de Dubai e é um primo pobre dos Emirados bacanudos.
Fomos com a promessa de achar os mesmos carros com preços muito melhores.
Depois de ficarmos perdidos por uma hora e meia seguindo nossos ditos "guias", chegamos ao tal mercado.
É um lugar bem tosco. Lojas de carros se enfileiram por quilômetros. Todas cheias de SUVs gigantescas. Algo que não parece de verdade, tal a quantidade. Imagina uma Santa Ifigênia que em vez de vender muamba vende Toyotas Land Cruiser e Pajeros.
Toyotas, Mitsubishis, Nissans, Lincolns, Infinitis, Lexus, Land Rovers...
Todas gigantes, caras, usadas e à venda.
Acho que só naquela área tinha mais delas que no Brasil inteiro.
E esse é o Emirado pobre...
Os preços eram melhores mas não eram nada de outro mundo.
E os vendedores ou aquele jeito de escroque safado ou são uns figuras panacas que não sabem nada de inglês.
Vi muitos carros mas ainda não fechei com nenhum.
A busca continua.
Depois tem mais. Muito mais.
O Ramadan terminou mesmo...
Dubai - e todo o mundo islâmico - explode em comemoração.
Os shoppings estão lotados. As praças de alimentação cheias não só de muçulmanos que estão tirando o atraso, mas também de não-muçulmanos que estavam de saco cheio de comer em casa.
As pessoas estão nas ruas os tempo todo. Diferente do Ramadan quando todos os muçulmanos ficavam meio em ponto-morto. Parece que eles estão correndo atrás do prejuízo.
Para mim vai ser uma baita mudança. Não vou ter que comer nos restaurantes caríssimos nas Emirates Towers - que abriam atrás de biombos - ou ter que levar sanduíches insípidos para comer no escritório.
O mundo volta a girar no ritmo de sempre.

Thursday, November 03, 2005

O Ramadan terminou.
E também terminou mais um projeto extremamente desgastante que me tirou do ar por uma semana, com direito a noite virada e tudo. Um daqueles projetos internacionais com 4 agências da rede envolvidas - nós, Londres, Noviorque e - surpresa - Brasil!
Como são irritantes estes projetos. Cada lugar tem uma idéia do que deve ser feito, todos apresentam coisas completamente diferentes e acham que estão certos. O problema é que é um projeto para o Oriente Médio e nós éramos o centro de tudo.
Óbvio que o pensamento estratégico que foi gerado aqui era mais elaborado, completo, definido, abrangente e EXTREMAMENTE CHATO.
As outras agências não tinham essa preocupação e apresentaram coisas interessantes e divertidas. Para nós foi um porre porque nossas comerciais tinham que dizer 1427 coisas diferentes, em 60 segundos.
Os passos eram definidos em conference calls - um dos maiores males do mundo corporativo contemporâneo. 30 pessoas curvadas em frente a aparelhos de telefone sem saber muito o que fazer e sem entender direito o que está se passando. Lindo!
E é melhor ainda quando elas são longas.
12 horas antes da apresentação e não tínhamos nada. Tudo, inclusive o material mandado pelas outras agências da rede, foi tachado de "fora da estratégia". Tivemos que sentar eu e outro diretor de criação e criar 5 filmes em 3 horas. 4 deles foram bombados novamente pelo picão local e pelo picão internacional que veio para cá especialmente para a apresentação. Aí remendamos idéias de outras agências, mudamos as nossas, viramos a noite e - surpresa - fizemos uma apresentação impecável.
O cliente deve ter achado que estávamos com tudo pronto há mais de 2 semanas e só ficamos ensaiando...
Parece aquelas cidades cenográficas de Hollywood. Só a fachada é real. Se o cliente olhasse atrás de mim iria ver os cabos e as estruturas que estavam me mantendo em pé.
Ah, o maravilhoso mundo da propaganda...

Wednesday, October 26, 2005

Pérolas de sabedoria.

Quando estiver criando anúncios e comerciais nos Emirados - e no resto do Oriente Médio - você não deve usar:

1 - Política
2 - Religião
3 - Sexo
4 - Camelos

Monday, October 24, 2005

Onde fica?

O tempo passa. A tecnologia chega. Carros velozes e modernos, internet, tv a cabo, edifícios que parecem ter saído de filmes de ficção científica...
Mas qual é o seu endereço?
Aqui em Dubai as coisas não tem endereço.
Achar um nome de rua é um parto. As avenidas até tem placas, mas vai tentar achar um número...
Para se localizar aqui você tem que ser um pouco beduíno.
Onde fica este oásis?
Ande 2 dias até uma árvore grande na direção do pôr-do-sol e vire à esquerda. Mais um dia de marcha e você chega no lugar.
Ainda é assim.
Os anúncios não tem endereços. Tem telefones.
Você liga para o lugar e eles dizem como chegar lá.
"Vá até a torre do relógio e vire em direção ao Al Khaleej Plaza Hotel. Quando cruzar o Al Maktoom Building você vai ver uma Coop - diminutivo de Cooperative, um supermercado local -aí você me liga que eu vou te pegar"
As indicações são assim. Mas com um sotaque estranho falando nomes ainda mais estranhos.
Já estou acostumado a me perder - faz parte da aventura.
Os lugares não tem CEP ou ZIP code.
O que acaba acontecendo é que toda a nossa correspondência acaba indo para os lugares onde trabalhamos - que em geral ficam em edifícios conhecidos e têm caixas postais que agilizam o processo.
Correio aqui é transportado por lesmas disfarçadas e os carteiros têm cérebro de pombos-correio para achar os lugares.
E neste exato momento tenho um jantar para ir sabe onde?
Sabe aquela árvore grande? Siga até ela e vire à esquerda.
Assim caminha a humanidade.

Sunday, October 23, 2005

Semana que vem termina o Ramadan.

A parte boa é que vou poder voltar a almoçar normalmente.
A parte melhor ainda é que tem um feriado de 4 dias para celebrar.
O islamismo não é demais?

Saturday, October 22, 2005

Os nenéns árabes.

Os nenéns árabes - principalmente os do Golfo - são esquisitos.
Eles não têm aquele olhar vago, sonhador, dos nenéns ocidentais.
Eles têm um olhar focado é sério. Cheio de propósito. E eles nunca choram.
Pelo menos eu nunca vi.
De vez em quando eu penso que são anõezinhos disfarçados.
Que medo!
Quem são os bárbaros?

Quando você diz que vai para um lugar no Oriente Médio a primeira coisa que as pessoas pensam é que você está louco.
Quando você diz que vai levar sua família junto aí pensam que deveriam cololocá-lo em uma camisa de força.
Eu adoraria dizer que estou um lugar que é o mais próximo de outro planeta que se pode experimentar se ser abduzido por camaradinhas cinzentos e cabeçudos.
Mas não é bem assim.
Você descobre quando vem para Dubai é que os seres humanos são muito parecidos. Que eles pensam igual e querem basicamente as mesmas coisas.
As pessoas que encontro aqui são menos alienígenas do que franceses, por exemplo. Ou, numa maior escala, do que holandeses.
E nem estou falando de suecos, finlandeses e noruegueses.
Naior parte dos casos considerar alguém selvagem ou incivilizado é uma questão de falta de informação, ignorância e, muitas vezes, burrice.
E quando se trata de Oriente Médio nós, cidadãos do mundo, somos extremamente ignorantes.
O importante é não terceirizar o conhecimento.
Não deixar que o Zeca Camargo e o Sergio Chapelin sejam a ferramenta pela qual entendemos o mundo.
Vocês gostam quando quando dizem que Brasil é um país onde só existem favelas e futebol e que uma vez por ano se entrega a um espetáculo orgiástico digno dos mais devassos imperadores romanos?
Bom, não está muito errado...
Mas somos muito mais do que isso!
Chega de Jornal Nacional!
Assistam ao Al Jazira.

Thursday, October 20, 2005

"A verdadeira viagem de descoberta consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos" Marcel Proust.

Foi com essa citação que comecei minha apresentação da campanha de Emirates Airlines - ou só Emirates, como eles gostam de ser chamados.
E acho que é assim que devemos levar nossas vidas.
Não precisamos mudar de lugar para descobrir algo novo.
A chave é estar sempre preparado para olhar para onde estamos de uma maneira original.
É possível sentar todo dia no seu escritório e sempre ver algo novo. E para isso você não precisa vir para Dubai. Só acredite na minha palavra.
Se bem que vir para Dubai ajuda...
Às vezes os novos olhos tem que ser importados.
E os meus olhos importados chegaram há um pouco mais de duas semanas.
Não dá para imaginar a quantidade de descobertas que um par de olhos fresquinhos proporcionam.
Os maravilhosos olhos da minha querida musa me trouxeram uma nova Dubai.
São novas cores, novos insights - ou sacadas, no bom e velho português, novas paisagens.
Foi ela que descobriu detalhes dos tetos do exagerado Ibn Battuta Shopping Mall - onde cada ala tem o estilo de um país do passado.
Ela que descobriu novos cheiros e sabores nos supermercados.
Foi quem descobriu detalhes da iluminação noturna do Burj Al Arab.
E, melhor de tudo, foi ela quem descobriu que as mulheres locais que vestem preto - abeyyas, como eles chamam estas túnicas - tem uma maneira toda especial de comunicar sua vaidade e sua predileção pelo luxo para quem só pode observar parte do seu rosto - às vezes nem isso.
Elas dizem isso usando as suas bolsas.
Bolsas Gucci, Prada, Fendi, Ferragamo, Louis Vuitton e etc.
Coisas que eu nunca havia percebido porque para mim dizem pouco - ou nada.
Mas que dizem muito.
Mulheres são mulheres. Não importa aonde você esteja.
Para entender isso você só precisa de novos olhos.

Tuesday, October 18, 2005

Que vista!

No final de semana passado fomos jantar com um casal de amigos libaneses no Madinat Jumeira, um hotel de frente para o mar que parece um castelo árabe antigo - e que fica do lado do Burj Al Arab.
O jantar foi num deck montado no meio da praia e a vista é coisa de cartão postal vagabundo.
Sabe que que cartão postal vagabundo sempre mostra aquelas fotos óbvias que a gente adora ver, mas tem vergonha de contar ou mandar para os amigos.
Esta era a vista do deck. Atrás da gente um castelo árabe sensacional. Do lado um dos prédios mais extraordinários do mundo - e um dos meus favoritos. Uma vista de sonho.
Para variar os libaneses pediram toneladas de comida - que aliás estava ótima.
Do nosso lado um monte de gente fumando shishas - o mesmo que narguilé - o que deixava o ar perfumado e leve.
A Carolina adorou o cheirinho - e comentou isso. Aliás ela era a única criança no lugar.
Foi engraçado porque foi a primeira vez que a ela saiu com a gente e com um casal que não falava português. Bom, a esposa do meu amigo não falava, porque ele passou a adolescência em Campinas.
Acho que já falei isso, mas dane-se. Se você me aguentou agora vai tolerar umas piadas repetidas.
Inglês foi a língua da noite.
E a pequena não entendia nada.
Caramba, deve ter pensado ela, gasto minha vida inteira aprendendo uma língua e esses caras agora decidem trocar tudo??!!!
Uma hora ela falou "Pára todo mundo. Vocês tão deixando a Calol maluca!!!"
A trilha sonora era feita por dois caras tocando música árabe - alaúde, tabla e vocais.
O visual, o cheiro e os sabores me fizeram ter de novo a sensação de que estou em outro planeta.
O pior é que eu tinha parado o carro no estacionamento do Souq (mercado) do hotel, que era longe pacas e na subida. Já pensou como foi a tarefa de carregar este colossinho por meia hora?
Nem preciso de academia.
Também nem preciso falar no tamanho da conta...não quero deixar ninguém chocado.
Use sua imaginação.
A vida é uma aventura ousada, ou nada.
Mas a comida e a vista são boas.

Sunday, October 16, 2005

Homens do deserto.

Todo dia eu vejo algo interessante e, como fiquei quase duas semanas sem postar, tem pilhas de coisas novas para descrever.
Tentem criar uma campanha mundial e correr atrás de uma menininha de 2 anos para entender o porquê do meu desaparecimento recente.
O que eu tenho para contar hoje tem a ver com os locais - os dubaianos - e sua relação com o deserto.
Este lugar inóspito para nós brasucas é objeto de adoração para eles.
Especialmente agora que estamos no Ramadã essa história ficou aparente. Toda noite volto pela Al Khail Road - uma estrada moderna que, em português, se chamaria Estrada dos Cavalos. Ela passa pelo meio do deserto - na borda da cidade de Dubai. E, como todo deserto de filme, está cheio de dunas. E eles param no acostamento com suas SUVs gigantes - a versão moderna dos camelos - e sobem nas dunas para conversar. Toda noite eles estão lá. Dúzias de carrões e seus donos, curtindo a noite no deserto. Como beduínos modernos armados de celulares em vez de cimitarrras.
Achou estranho?
Então imagina você numa fila por uma hora para entrar em uma danceteria onde a música é alta, a cerveja é quente, o preço é alto e o atendimento é péssimo.
Eu fico com o deserto.
Gui 1x0 Tim Delaney

A campanha de Emirates fez um sucesso e recebi um monte de comentários positivos de todos os lados.
E-mails bacanas, pessoas me parando no corredor.
Me faz quase ficar feliz por ter passado por 3 meses de privações e pressões enormes de todos os lados para entregar esta campanha.
Eu já estava acostumado a ter muita gente envolvida em projetos grandes, mas agora foi demais.
Do CEO da agência até o atendimento júnior todo mundo tinha algo a dizer. E o panaca aqui tinha que gerenciar todas as expectativas e tentar entregar um material coerente.
A primeira apresentação foi na semana passada, na terça, dia 11. Claro que depois de uma noite em claro. Para não perder o costume das grandes concorrências.
Foi muito cansativa. Dormi só uma hora e vim correndo para a agência para terminar as últimas peças.
Tudo terminado fiquei esperando a hora de entrar na reunião, que se arrastava por horas. Sentadinho numa poltrona por umas duas horas. Sem comer nada desde a manhã. E isso eram 4 horas da tarde.
Mas a adrenalina estava lá - e é disso que eu preciso quando vou apresentar algo.
A apresentação foi ótima. Pelo menos eu me senti ótimo e o feedback foi excelente. Disseram na hora que o trabalho é muito melhor do que o apresentado pela Leagas Delaney de Londres, pela Saatchi Saatchi de Hamburgo e por uma agência poderosa de Nova Iorque que eu não lembro o nome.
Melhor. No dia seguinte eles disseram que iríamos apresentar para os rolas-grossa de Emirates. Caras que nunca dão as caras para agência nenhuma, se é que você entende.
E essa apresentação foi hoje. Estou no escritório desde as 7h30 da matina. Fomos para a Emirates ao meio dia e a apresentação começou uma da tarde. De novo sem almoço e com muita adrenalina - e agora com casa cheia.
A apresentação privê para os roludos acabou sendo um festival com mais de 15 pessoas do lado do cliente.
Mais uma vez tudo foi muito bem e, ao final, eles colocaram todas as campanhas na mesa e começaram a fazer comentários.
Nestas horas em geral eu desligo porque não tem nada que me diga respeito. 90% são comentários bestas que o pessoal mais júnior faz para impressionar os chefes. E em geral são um porre. De vez em quando alguém faz uma pergunta e você responde da maneira mais apaixonada possível - e depois volta para a letargia.
Essa letargia também é causada pela excitação da apresentação - no final de uma apresentação importante você tem a sensação de que é um pedaço de maria-mole. Não dá vontade de fazer mais nada.
O pior é que você volta e tem toneladas de coisas para fazer.
Assim é a vida.
Muito bom para uma agência que nem tinha sido convidada para a concorrência no começo.
Entramos de bicões e mandamos ver.
A seguir cenas dos próximos capítulos.

Monday, October 10, 2005

Hoje o dia pegou e ainda está pegando.

A campanha de Emirates está rolando a todo vapor e, como nos velhos tempos, devo ficar no trabalho até de madrugada.
Assim que terminar esta correria vou voltar a postar com mais regularidade.
Por enquanto o que eu posso fazer é sobreviver a esta noite.
Quem disse que eu iria ter moleza aqui em Dubai?
Vamos que vamos...

Sunday, October 09, 2005

Voltando à ativa.

Os últimos dias foram completamente tomados por duas coisas: minha família e a campanha de Emirates Airlines.
Felizmente a campanha de Emirates tem data para terminar.
Família é para sempre.
Ainda bem.

Thursday, October 06, 2005

Para a frente, sempre.

Ainda estou tomando fôlego para contar como foi a chegada das minhas meninas.
Posso adiantar que foi fantástica. Minha vida já está totalmente diferente. Agora faço de tudo para chegar o mais rápido possível em casa.
O problema é que o nosso condomínio é longe de tudo. E em Dubai tudo é longe de tudo. Sem carro você não chega a lugar nenhum.
É uma metáfora da sua vida. Se você não estiver no controle, não chega a lugar nenhum.
Se estiver com alguém na direção, pode ser que o lugar em que chegue não seja o lugar em que queria estar - e pode demorar muito mais do que gostaria.
Por isso vou comprar um carrão, porque além de chegar no lugar que quero, ainda posso passar por cima dos outros.
E a gasolina ainda é barata.
A rua, digo, a vida não é linda?

Monday, October 03, 2005

Einstein e Dubai.

O tempo é realmente relativo.
O dia de hoje não acaba nunca. As horas se arrastam. Os ponteiros do relógio parecem presos numa gelatina que faz cada segundo demorar o dobro.
Estou meio anestesiado. Não parece que está acontecendo.
Acho que me acostumei a viver o dia inteiro com saudade. Acabou virando parte de mim essa sensação de vazio, falta de algo maior que você que costumamos chamar de saudade - e que é um mistério para aqueles que falam inglês, já que eles não tem uma palavra equivalente para este sentimento tão intenso. E acho que não tem esse termo também em árabe, mas tenho certeza.
Não consigo me imaginar sem saudade. É como se esta sensação estivesse comigo desde sempre.
Como será a hora em que se abrirem as portas e a saudade se for?
Se os ponteiros do relógio colaborarem, amanhã vou produzir um relato completo.

Sunday, October 02, 2005

Amanhã é o dia.
Depois de quase 4 meses elas estão chegando.
E vou me sentir uma pessoa completa de novo, tanto tempo depois.
A não-aventura.

Hoje cortei o cabelo pela segunda vez desde que cheguei em Dubai.
Estou no meio de uma loucura de trabalho e as meninas chegam amanhã. Imaginem como está a minha cabeça...
Como estava sem tempo fui a um barbeiro, ou cabelereiro, perto das Emirates Towers. Pelo estilo dos caras eles devem ser libaneses.
Não teve nem metade da graça da vez em que cortei o cabelo naquele salão indiano no meio de Bur Dubai.
E, claro, custou 4 vezes o preço.
Estou ficando tão acostumado com ter uma aventura depois da outra que, quando as coisas acontecem de uma maneira previsíve,l parece que a experiência parou no meio do caminho.

Que venham novos desafios!